Anos 80: a década que se recusou a morrer.
Rock, new wave, synthpop, pós-punk, pop, guitarras, máquinas, vozes, baixos, cenas, excessos e centenas de artistas que ainda aparecem quando alguém aperta play.
Talvez os anos 80 tenham acabado no calendário. O problema é que ninguém avisou às músicas.
Elas continuam entrando em carros, academias, festas, lojas, filmes, séries, casamentos, funerais, fones de ouvido e quartos onde alguém ainda aumenta o volume quando reconhece os primeiros segundos.
E talvez seja justamente aí que começa o problema da nostalgia.
Você pensa que sente falta de uma música.
Às vezes sente falta de uma cidade.
Às vezes de uma pessoa.
Às vezes daquele aparelho de som.
Às vezes de uma fita cassete que você virou com a caneta porque gastar pilha era uma ideia idiota.
E às vezes sente falta daquela versão de você que ainda não sabia onde a vida iria parar.
Então não vamos fazer outra lista de “100 músicas inesquecíveis”.
Existem listas suficientes no planeta.
Quero fazer outra coisa.
Quero pegar algumas dessas bandas, arrancar o vocalista do centro por alguns minutos e perguntar:
quem mais está fazendo essa música existir?
Quem está no baixo?
Quem colocou peso na bateria?
Quem está escondido atrás daquele sintetizador?
Quem aparece durante quatro segundos no vídeo e some enquanto todo mundo volta a olhar para a estrela?
E por que uma música gravada há quarenta anos consegue entrar num palco em 2009, 2019 ou 2024 e continuar parecendo viva?
Jaaaaah.
Essa droga vai demorar.
Não reconheça a música. Escute a banda.
Se você só pretende passar os olhos pelos nomes e dizer “essa eu conheço”, esta página provavelmente vai irritar você.
Porque a brincadeira aqui é outra.
Em algumas performances, faça uma coisa por vez.
Primeiro a voz.
Depois volte e procure o baixo.
Depois bateria.
Depois teclados.
Guitarra.
Backing vocals.
E, quando houver câmera suficiente para isso, observe os músicos.
Quem olha para quem?
Quem espera um sinal?
Quem sorri discretamente porque alguma coisa aconteceu naquele palco e só eles sabem exatamente o que foi?
Às vezes você conhece uma música há quarenta anos e ainda não conhece todo mundo que está dentro dela.
É isso que vamos procurar.
Quando parecer estranho começou a ser uma vantagem.
Guitarras ainda estavam lá. Baixos também. Mas sintetizadores, estética, moda, televisão e uma enorme vontade de não parecer com a banda anterior começaram a disputar o mesmo espaço.
A Flock of Seagulls — esqueça o cabelo por quatro minutos.
É praticamente impossível falar de A Flock of Seagulls sem alguém imediatamente lembrar do penteado de Mike Score.
Tudo bem.
Agora que já resolvemos isso, podemos ouvir a banda?
A Flock of Seagulls — I Ran · performance ao vivo.
B-52's — parece festa. Escute o mecanismo por baixo.
O B-52's sempre carregou uma qualidade quase instantânea de festa.
Só que festa não acontece sozinha.
“Private Idaho” funciona porque existe uma base rítmica extremamente insistente segurando aquele caos colorido.
The B-52's — Private Idaho · ao vivo em Athens, Georgia.
Berlin — uma música pode escapar da banda e virar memória coletiva.
“Take My Breath Away” ficou tão colada a Top Gun que às vezes parece pertencer primeiro ao cinema e só depois ao Berlin.
É um daqueles casos em que uma música ultrapassa a própria origem.
Blondie — Debbie Harry está na frente. A banda não desapareceu.
“Call Me” é uma daquelas músicas que entram sem pedir licença.
Debbie Harry naturalmente domina a imagem.
Agora faça o contrário.
The Cars — Live Aid, 1985. Agora procure a simplicidade.
Algumas bandas soam enormes porque tocam muito.
Outras soam enormes porque sabem exatamente o que não tocar.
The Cars — Just What I Needed · Live Aid, 1985.
Culture Club — uma voz reconhecível em segundos.
Boy George tinha uma coisa que não se aprende em manual: identidade imediata.
Você não precisa ouvir um refrão inteiro para saber quem está cantando.
Duran Duran — agora pare de olhar apenas Simon Le Bon.
Jaaaaah.
Chegamos num ponto delicado.
Porque muita gente ouve Duran Duran e segue Simon Le Bon do primeiro ao último segundo.
Nada contra.
Mas hoje eu quero outra coisa.
John Taylor.
Baixo.
Depois Nick Rhodes.
Depois Roger Taylor.
Depois a guitarra.
E só então coloque Simon no centro novamente.
Duran Duran — Planet Earth · Global Citizen performance.
The Go-Go's — antes de tudo ficar enorme.
Whisky a Go Go.
1980.
A graça de um registro assim é lembrar que bandas que mais tarde parecem inevitáveis já foram apenas pessoas tentando fazer aquela droga funcionar num palco menor.
Icehouse — No Promises, Melbourne, 1988.
Algumas músicas dos anos 80 ficaram tão associadas à produção de estúdio que vê-las num palco é quase desmontar a embalagem.
INXS — New Sensation. O título explica bastante.
Michael Hutchence naturalmente puxa os olhos.
Mas INXS nunca foi apenas Michael Hutchence.
Kajagoogoo — “Too Shy” não é apenas aquele refrão.
Sim.
O refrão grudou.
Agora procure o baixo.
Porque quando você resolve seguir o instrumento em vez da lembrança, algumas músicas mudam completamente de tamanho.
Modern English — uma música sobrevive quando ainda consegue parecer íntima.
“I Melt With You” atravessou décadas sem precisar virar peça de museu.
Modern English — I Melt With You · KEXP.
Pseudo Echo — antes de Funkytown começar, já tem coisa acontecendo.
ESSA performance é exatamente o tipo de vídeo pelo qual vale a pena procurar além do primeiro resultado óbvio.
Porque existe um aquecimento da banda antes da música entrar.
E aquilo diz muito.
Pseudo Echo — Funkytown · live, com aquecimento da banda.
Simple Minds — uma multidão sabe quando é a vez dela.
“Don't You (Forget About Me)” acabou virando maior que muitas histórias individuais ligadas a ela.
Live Aid coloca outro ingrediente:
público.
Talk Talk — It's My Life, Montreux, 1986.
Aqui não precisamos viajar décadas para encontrar a música em palco.
Estamos em 1986.
Thompson Twins — Doctor! Doctor!, 1984.
Outra lembrança de como “banda” nos anos 80 podia significar uma mistura muito menos óbvia de funções, tecnologia e imagem do que aquela formação clássica de quatro músicos em linha.
Talking Heads — quando tocar e performar deixam de ser coisas separadas.
“Burning Down the House”, em Stop Making Sense, é quase uma resposta para quem acha que show é apenas reproduzir uma música diante de público.
Aqui existe movimento.
Espaço.
Construção.
E uma banda inteira sendo parte da imagem.
Os anos 80 não inventaram a ideia de misturar som e imagem. Mas fizeram essa mistura parecer impossível de separar novamente.
Quando as máquinas aprenderam a sentir.
Sintetizadores não mataram a música. Só deram aos músicos outra maneira de construí-la.
Depeche Mode — agora escute o que acontece quando a bateria ganha músculos.
David Gahan naturalmente domina o palco.
Martin Gore chama atenção pela composição, guitarra, teclados e aquela voz que surge quando a música pede outra cor.
Andrew Fletcher ocupou durante décadas aquele espaço discreto que parecia pequeno para quem só olhava e enorme para quem entendia a arquitetura da banda.
Mas existe uma mudança que qualquer pessoa consegue perceber quando começa a comparar determinadas performances ao vivo.
Christian Eigner.
Austríaco.
Baterista.
E um daqueles músicos que entram num repertório já gigantesco e conseguem acrescentar outra camada física sem apagar aquilo que já existia.
Depeche Mode — Strangelove · Paris, Stade de France, 2009.
Yazoo — duas pessoas. E não precisava de mais.
Vince Clarke.
Geneviève Alison Jane Moyet.
Alison Moyet.
De um lado, máquinas, sequências, sintetizadores e a precisão de alguém que já havia ajudado a construir o primeiro capítulo do Depeche Mode.
Do outro, uma voz que não parecia interessada em combinar delicadamente com aquilo.
Ainda bem.
Porque parte da força do Yazoo mora justamente no contraste.
Yazoo — Don't Go · The Tube, Reino Unido, 1982.
Vince Clarke ainda não tinha terminado.
Depeche Mode.
Yazoo.
E depois Erasure.
Às vezes um músico deixa uma banda e parece desaparecer dentro da história dela.
Vince fez quase o contrário.
Foi abrindo outras portas.
Ao lado de Andy Bell, encontrou no Erasure uma parceria que construiria outra identidade imediatamente reconhecível.
Erasure — A Little Respect · Prince's Trust Rock Gala, 1989.
Depeche Mode → Yazoo → Erasure. Às vezes seguir um músico é uma maneira melhor de entender uma década do que seguir uma parada de sucessos.
Pet Shop Boys — eletrônica também pode ser monumental.
Neil Tennant.
Chris Lowe.
Duas presenças praticamente opostas.
Uma voz frontal.
Um homem atrás das máquinas que frequentemente parece ter feito um pacto pessoal com a imobilidade.
E funciona.
“It's a Sin” mostra o quanto synthpop pode crescer quando deixa de ser pensado como música pequena.
Pet Shop Boys — It's a Sin · Glastonbury, 2010.
New Order — Blue Monday nunca precisou pedir desculpas por ser máquina.
Existe uma estrada inteira antes do New Order.
Joy Division.
Ian Curtis.
Bernard Sumner.
Peter Hook.
Stephen Morris.
Gillian Gilbert.
Mas “Blue Monday” representa uma virada tão grande que parece quase uma declaração:
eletrônica e banda não precisavam ocupar lados opostos.
New Order — Blue Monday · ao vivo em Glasgow.
Jim Diamond — às vezes uma voz já carrega toda a memória.
“I Should Have Known Better” pertence àquela categoria perigosa de música que consegue transformar duas notas em passagem de volta.
Não precisamos fazer cirurgia em toda gravação.
Algumas existem para lembrar que uma voz também pode ser o instrumento principal.
The Human League — décadas depois, a arquitetura continua reconhecível.
Philip Oakey.
Joanne Catherall.
Susan Ann Sulley.
“Don't You Want Me” atravessou tanto tempo que já não parece pertencer exclusivamente a um álbum, uma banda ou uma década.
Virou memória coletiva.
The Human League — Don't You Want Me · Copenhagen, 2024.
Alphaville — agora procure Alexandra Merl.
Marian Gold estará na frente.
Natural.
Mas quero que você olhe para outra pessoa.
Alexandra Merl.
Baixo.
Toda de preto.
Inquieta.
Puxa a música fisicamente.
E existe uma diferença enorme entre um músico apenas tocar as notas corretas e um músico parecer empurrar uma banda inteira.
Alphaville — Big in Japan · Discoteka 80, Moscou.
Information Society — e de repente estamos no Rock in Rio.
Synthpop americano encontrando uma plateia brasileira gigantesca.
“What's on Your Mind” funciona aqui não apenas pela música, mas pelo choque entre uma produção eletrônica extremamente reconhecível e a dimensão física de um festival.
Information Society — What's on Your Mind · Rock in Rio II.
Gary Numan + Nine Inch Nails — quando a influência encontra o influenciado.
Agora entramos numa das conexões mais bonitas desta matéria.
Gary Numan ajudou a criar uma linguagem eletrônica que chegaria muito além da própria carreira.
Décadas depois, ele aparece no palco com Nine Inch Nails.
Tocando “Cars”.
A própria música.
Dentro de outra máquina.
Nine Inch Nails + Gary Numan — Cars · Londres, 2009.
When in Rome — algumas músicas só precisam de uma promessa.
“The Promise” nunca precisou ser a música mais complexa dos anos 80 para sobreviver.
Precisou apenas daquele desenho melódico, daquela atmosfera e de um refrão que decidiu permanecer.
Propaganda não terminou quando os anos 80 terminaram.
Algumas histórias voltam com outros nomes.
xPropaganda reúne Claudia Brücken e Susanne Freytag, trazendo novamente para o palco parte daquela história construída em torno do Propaganda.
E “Duel” continua funcionando porque boas ideias não consultam calendário antes de reaparecer.
xPropaganda — Duel · apresentação de 2023.
Synthpop nunca foi apenas “apertar botão”. Era composição, programação, voz, textura, baixo, tecnologia e, muitas vezes, uma quantidade absurda de trabalho escondida atrás de uma aparência simples.
Um músico sai. Outra história começa.
Se você acompanhar apenas bandas, perde metade da diversão. Às vezes a melhor maneira de atravessar os anos 80 é seguir pessoas.
Vince Clarke
Depeche Mode.
Yazoo.
The Assembly.
Erasure.
Quatro nomes.
Um mesmo músico atravessando projetos diferentes e deixando pedaços de sua linguagem em cada lugar.
Bernard Sumner
Joy Division.
New Order.
Electronic.
Outra estrada em que uma pessoa funciona quase como ponte entre gêneros, décadas e maneiras diferentes de construir música.
Peter Hook
Joy Division.
New Order.
E um baixo que se recusa a permanecer no lugar onde tradicionalmente mandavam o baixo ficar.
Bandas terminam. Músicos continuam. E às vezes a história mais interessante começa justamente depois do ponto em que a biografia tradicional encerra o capítulo.
Alguém apagou o neon.
Nem todo mundo queria transformar os anos 80 em festa. Algumas bandas preferiram tensão, espaço, repetição, guitarras angulares, baixos na frente e uma sensação de que alguma coisa estava ligeiramente fora do lugar.
Echo & The Bunnymen — Lips Like Sugar ainda anda como se tivesse alguma coisa a esconder.
Ian McCulloch na voz.
Will Sergeant na guitarra.
Les Pattinson no baixo.
Pete de Freitas na bateria durante a formação clássica.
Existe uma elegância estranha no som do Echo & The Bunnymen.
Não é polido no sentido convencional.
É controlado.
E ainda assim parece que alguma coisa pode sair da linha.
Echo & The Bunnymen — Lips Like Sugar · ao vivo no SXSW.
The Cure — agora pare de seguir Robert Smith.
Sim.
Eu sei.
Robert Smith está ali.
Cabelo.
maquiagem.
voz.
guitarra.
presença.
Tudo chama atenção.
Agora faça aquilo que quase ninguém faz.
Simon Gallup.
Baixo.
Quase no calcanhar.
E uma maneira de tocar que não está ali para preencher espaço.
Está puxando a música.
The Cure — Lullaby · Pinkpop, 2019.
Kid Vinil — porque os anos 80 brasileiros também sabiam ser estranhos.
Algumas memórias de uma década chegam pela rádio.
Outras chegam pela televisão.
E algumas chegam por pessoas que pareciam existir justamente para mostrar que música podia ser mais esquisita, mais divertida e menos comportada.
Kid Vinil foi uma dessas figuras.
Kid Vinil — Sou Boy · registro televisivo.
Siouxsie — Cities in Dust não precisa pedir licença.
Susan Janet Ballion.
Siouxsie Sioux.
Uma voz que consegue soar cortante sem perder precisão.
E uma presença que nunca dependeu de tentar parecer simpática.
The Smiths — How Soon Is Now ao vivo. Agora tira a gravação de estúdio da cabeça.
Steven Patrick Morrissey na voz.
Johnny Marr na guitarra.
Andy Rourke no baixo.
Mike Joyce na bateria.
“How Soon Is Now” se tornou tão associada à textura da guitarra que muita gente praticamente ouve a produção antes de ouvir a banda.
Ao vivo, o truque fica exposto.
The Smiths — How Soon Is Now · rara versão ao vivo.
The The — This Is the Day. Não, eu não vou chorar.
Matt Johnson.
Uma música que parece conversar diretamente com aquele momento em que alguém olha para a própria vida e percebe que esperou demais por alguma coisa mudar.
Décadas depois, ela continua funcionando.
Talvez porque esse problema também não tenha saído de moda.
The The — This Is the Day · KEXP.
Se a new wave acendeu as luzes, o pós-punk começou a perguntar o que havia escondido nos cantos da sala.
Agora apaga a luz de vez.
Baixos enormes. Espaço. Repetição. Guitarras que parecem ecoar em prédios vazios. Vozes que não estão interessadas em parecer confortáveis. E uma estética que acabaria influenciando muito mais do que apenas música.
Bauhaus — Ziggy Stardust passou por outra porta.
Peter John Joseph Murphy.
Daniel Ash.
David J.
Kevin Haskins.
E aqui existe uma deliciosa perversão histórica:
pegar Bowie.
passar pelo Bauhaus.
e sair do outro lado com outra temperatura.
Bauhaus — Ziggy Stardust · The Old Grey Whistle Test.
The Sisters of Mercy — agora nós vamos falar daquela madeira.
Andrew Eldritch naturalmente concentra a imagem.
Mas “Lucretia My Reflection” tem uma coisa que não aceita ficar escondida.
O baixo.
Patricia Morrison.
E se você ainda acha que baixo serve apenas para colocar alguma coisa discretamente embaixo da guitarra, eu tenho uma floresta inteira para apresentar.
The Sisters of Mercy — Lucretia · Golden Rose Festival, Montreux, Suíça, 1988.
The Mission — Butterfly on a Wheel.
Wayne Hussey.
Craig Adams.
Uma história que também se conecta diretamente à árvore da própria cena gótica britânica.
Porque músicos mudam de banda.
Levam repertório de experiências.
Levam som.
Levam conflitos.
E às vezes constroem outra coisa.
Cocteau Twins — às vezes a voz deixa de parecer linguagem.
Elizabeth Fraser.
Robin Guthrie.
Simon Raymonde.
“Lorelei” mostra uma coisa que a música pop nem sempre permite:
a voz funcionando quase como textura pura.
Você não precisa agarrar cada palavra.
Pode simplesmente entrar no som.
Cocteau Twins — Lorelei · The Old Grey Whistle Test, 1985.
Gene Loves Jezebel — Desire em São Paulo, 1988.
Agora a viagem cruza o Atlântico.
E encontra São Paulo.
1988.
Esse tipo de registro é ouro justamente porque coloca uma cena internacional diante de um público brasileiro enquanto tudo ainda estava acontecendo.
Gene Loves Jezebel — Desire · São Paulo, 1988.
A estética gótica ficou famosa. O problema é que muita gente parou na roupa e esqueceu de ouvir os baixos, guitarras, atmosferas e músicos que construíram aquela escuridão.
Você ainda está procurando a sua banda?
Ótimo. Agora temos alguém especialmente simpática para responder essa pergunta.
Passport Radio interrompe esta matéria por dez segundos.
“Não achou sua favorita?” · chiclete · “Problema é seu.”
Pop não era música menor. Para com essa besteira.
Madonna, Cyndi Lauper, George Michael, Tina Turner, Debbie Gibson, Sade, Sandra, Sabrina, Olivia Newton-John, Paula Abdul, Desireless. Vozes diferentes, públicos diferentes e maneiras completamente diferentes de ocupar rádio, televisão e palco.
Madonna — antes de virar instituição, ainda havia uma garota conquistando o palco.
Madonna Louise Ciccone.
Hoje o nome parece grande demais para caber numa década.
Mas existe uma vantagem em voltar a registros de turnês antigas: você encontra o momento em que aquela imagem ainda estava sendo construída diante do público.
“Like a Virgin” não precisa ser tratada apenas como um hit.
Observe a maneira como performance, dança, figurino, música e provocação já estavam sendo transformados numa única linguagem.
Madonna — Like a Virgin · The Virgin Tour.
Cyndi Lauper — parecia brincadeira até você prestar atenção na voz.
Cynthia Ann Stephanie Lauper.
Cyndi Lauper.
Cor.
cabelo.
roupas.
humor.
Tudo isso podia distrair alguém da coisa mais óbvia:
aquela mulher sabia cantar.
Cyndi Lauper — The Goonies 'R' Good Enough · ao vivo em Paris.
George Michael — tire os anos 80 da frente por alguns minutos.
Georgios Kyriacos Panayiotou.
George Michael.
Wham! colocou sua voz dentro de uma das histórias pop mais reconhecíveis da década.
Mas reduzir George Michael à imagem jovem dos anos 80 seria perder justamente o que aconteceu depois.
Então vamos avançar no tempo.
“Praying for Time”.
Outra idade.
outra postura.
mesma capacidade de fazer uma voz carregar praticamente tudo sozinha.
George Michael — Praying for Time · Symphonica.
Tina Turner — algumas pessoas não entram no palco. Tomam posse dele.
Anna Mae Bullock.
Tina Turner.
E agora não preciso pedir que você procure alguém escondido.
Porque às vezes o próprio centro é o fenômeno.
“We Don't Need Another Hero” nasceu ligada a Mad Max Beyond Thunderdome, mas rapidamente ficou grande demais para depender do filme.
Tina Turner — We Don't Need Another Hero · Wembley Stadium, 2000.
Debbie Gibson — pronto. Agora essa droga ficou pessoal.
Deborah Ann Gibson.
Debbie Gibson.
Existem artistas que pertencem a uma década.
Existem artistas que pertencem a uma geração.
E existem aqueles que...
bem...
moravam secretamente no seu quarto.
Eu tinha doze anos.
Não farei mais comentários.
Próximo assunto.
...
Não.
Volta.
Porque existe uma injustiça quando Debbie Gibson é lembrada apenas como um rosto adolescente numa revista ou num pôster.
Ela escrevia.
cantava.
tocava.
produzia.
E “Foolish Beat” existe como uma ótima oportunidade para separar a memória adolescente do trabalho musical.
Debbie Gibson — Foolish Beat · ao vivo, Pittsburgh, 1988.
Existem críticas musicais objetivas. Esta não é uma delas. Próximo.
Sade — ninguém precisa correr quando sabe exatamente onde a música vai chegar.
Helen Folasade Adu.
Sade Adu.
E aqui existe uma qualidade que falta em muita performance:
espaço.
Nada parece desesperado para provar alguma coisa.
“Paradise” anda.
Respira.
E sabe que você vai acompanhar.
Sade — Paradise · ao vivo, 2011.
Sandra — Maria Magdalena e aquela Europa que chegava pelo rádio.
Sandra Ann Lauer.
Uma voz que se tornou imediatamente associada à produção europeia dos anos 80.
“Maria Magdalena” atravessou países justamente porque não precisava que o ouvinte pertencesse ao mesmo lugar de onde a música veio.
O sintetizador não carregava passaporte.
Sandra — Maria Magdalena · Montreux Golden Rose.
Sabrina — sim, também faz parte dessa história.
Sabrina Salerno.
“Boys”.
Uma música ligada a um tipo de euro-pop absolutamente reconhecível daquele período.
E aqui não vamos fingir superioridade retrospectiva.
Se tocou.
marcou.
ficou.
então pertence à conversa.
Olivia Newton-John — uma canção pode sobreviver à época que a criou.
“Hopelessly Devoted to You” vem de antes dos anos 80.
E justamente por isso está aqui.
Décadas são péssimas em obedecer fronteiras.
O que você escutava em 1981 podia ter sido gravado em 1978.
O que marcou 1988 podia ter começado anos antes.
Memória não consulta data de lançamento.
Olivia Newton-John — Hopelessly Devoted to You · Viña del Mar, 2017.
Paula Abdul — quando dança e música recusam a separação.
Paula Julie Abdul.
Coreógrafa.
dançarina.
cantora.
E alguém cuja história pop não faz sentido se você tentar separar som e movimento.
“Rush Rush” mostra outra Paula.
Menos ataque coreográfico.
Mais espaço para a música respirar.
Desireless — Voyage, Voyage fez exatamente aquilo que o título prometia.
Claudie Fritsch-Mentrop.
Desireless.
França.
Uma produção que atravessou fronteiras sem precisar abandonar a própria língua.
E décadas depois ainda existe público esperando justamente aquele começo.
Desireless feat. Operation of the Sun — Voyage, Voyage · 2016.
Pop não precisa pedir desculpas por ser popular. Se milhões de pessoas carregaram uma música por décadas, talvez exista alguma coisa ali que mereça ser ouvida antes de ser desprezada.
As guitarras não foram embora. Só tiveram que dividir a sala.
Enquanto sintetizadores cresciam, rock, hard rock e AOR continuavam enchendo arenas. Às vezes usando teclados. Às vezes brigando com eles. Às vezes descobrindo que a melhor solução era fazer as duas coisas.
Queen — Wembley, 1986. Precisa mesmo explicar?
Farrokh Bulsara.
Freddie Mercury.
Brian Harold May.
Roger Meddows Taylor.
John Richard Deacon.
Quatro pessoas.
Quatro identidades musicais muito diferentes.
E talvez seja justamente por isso que Queen nunca soou como uma banda construída ao redor de um vocalista acompanhado por três funcionários.
Queen — I Want to Break Free · Wembley, 1986.
Asia — progressivo aprendeu a caber no rádio sem esquecer de tocar.
John Wetton.
Steve Howe.
Geoff Downes.
Carl Palmer.
Só os currículos desses quatro já davam material para uma matéria inteira.
Asia chegou carregando músicos de histórias enormes e transformou virtuosismo em músicas capazes de viver também no rádio.
Asia — Only Time Will Tell · Budokan, Tóquio, 1983.
Styx — Babe. Às vezes o rock também queria simplesmente doer.
Nem toda banda de rock precisava estar em guerra com a própria sensibilidade.
“Babe” é prova disso.
Baladas gigantes não diminuíram bandas.
Muitas vezes abriram uma porta para outro público.
Styx — Babe · ao vivo, 1996.
Survivor — Rocky não levou tudo.
“Eye of the Tiger” ficou tão gigantesca que às vezes engole a lembrança do restante da banda.
Então vamos para “Burning Heart”.
Outra música ligada ao universo Rocky.
Outra demonstração de como aquela combinação de guitarra, refrão e urgência funcionava.
Survivor — Burning Heart · ao vivo.
Os anos 80 não foram sintetizador contra guitarra. Foram uma década em que todo mundo descobriu que podia roubar ferramentas da sala ao lado.
Nem tudo precisava explodir.
Algumas músicas sobreviveram justamente porque falavam baixo. Outras porque pareciam deslocadas no próprio tempo. E algumas porque nunca aceitaram entrar numa categoria confortável.
Suzanne Vega — Luka não precisa levantar a voz para deixar marca.
Algumas músicas descrevem dor sem transformá-la em espetáculo.
“Luka” é uma delas.
A delicadeza da música torna o conteúdo ainda mais desconfortável.
Suzanne Vega — Luka · Montreux, 2004.
Kate Bush — tecnicamente 1979. Culturalmente? Boa sorte tentando prendê-la num calendário.
Catherine Bush.
Kate Bush.
“Wuthering Heights” chegou antes da década começar.
Mas sua influência, sua imagem e sua linguagem atravessariam os anos 80 de maneira tão profunda que excluí-la por burocracia de calendário seria ridículo.
Então ela entra.
Problema seu.
Kate Bush — Wuthering Heights · Manchester Apollo, 1979.
Décadas são úteis para organizar arquivos. Música raramente se importa com elas.
Não estávamos assistindo. Estávamos fazendo.
Enquanto Londres, Nova York, Manchester e Berlim produziam suas próprias cenas, o Brasil construía outra coisa: rock, new wave, pós-punk, pop, irreverência, letras urbanas, sintetizadores, guitarras e bandas que falavam diretamente com quem estava vivendo o país naquele momento.
Blitz — duas passadas do paraíso e uma banda que sabia transformar conversa em música.
Evandro Mesquita na frente.
Mas a Blitz nunca foi apenas “a voz engraçada daquele cara”.
Havia banda.
Havia dinâmica.
Havia diálogo.
Havia uma maneira de escrever como se a música estivesse acontecendo na esquina, dentro de um bar, numa praia, numa conversa mal resolvida.
Blitz — A Dois Passos do Paraíso · ao vivo.
Biquini Cavadão — Vento Ventania e o poder de um refrão que corre sozinho.
Algumas músicas parecem ter sido escritas para o público entrar junto.
“Vento Ventania” é uma delas.
Biquini Cavadão — Vento Ventania · ao vivo.
Camisa de Vênus — ninguém ali parecia interessado em ser comportado.
Marcelo Nova.
E agora já sabemos que delicadeza não era exatamente o objetivo.
“Simca Chambord” e “O Ponteiro Tá Subindo” carregam aquela combinação de provocação, rua e uma banda que parecia gostar de deixar tudo um pouco mais áspero.
Camisa de Vênus — Simca Chambord / O Ponteiro Tá Subindo · ao vivo.
Capital Inicial — Fátima ainda entra como soco.
Algumas letras envelhecem.
Outras continuam encontrando novas maneiras de parecer atuais.
“Fátima” pertence à segunda categoria.
Capital Inicial — Fátima · ao vivo.
Dr. Silvana & CIA — o Brasil também sabia brincar com synthpop e pop rock sem pedir autorização.
“Serão Extra” é uma daquelas músicas que carregam a década inteira nos primeiros segundos.
Teclado.
ritmo.
refrão.
e aquele jeito absolutamente brasileiro de colocar humor dentro de uma música sem desmontar a música.
Dr. Silvana & CIA — Serão Extra · Festa Ploc / Circo Voador.
Lobão — Vida Bandida não entra andando. Entra chutando a porta.
João Luiz Woerdenbag Filho.
Lobão.
Bateria, guitarra, voz, composição, provocação.
E uma relação com o palco que nunca pareceu particularmente interessada em passar despercebida.
Lobão Power Trio — Vida Bandida · ao vivo em São Paulo.
Ira! — Envelheço na Cidade. O título ficou ainda mais cruel.
Algumas músicas mudam porque nós mudamos.
“Envelheço na Cidade” era uma coisa quando alguém tinha vinte anos.
É outra aos quarenta.
Outra aos cinquenta.
E talvez seja justamente por isso que certas músicas não envelhecem.
Elas deixam esse trabalho para a gente.
Ira! — Envelheço na Cidade · Rock in Rio.
Kid Abelha — No Meio da Rua. Pop brasileiro também tinha baixo, guitarra e banda de verdade.
Paula Toller naturalmente puxa a atenção.
Mas Kid Abelha nunca foi apenas Paula.
George Israel.
Bruno Fortunato.
E uma história inteira construída com instrumentistas, arranjos e repertório que atravessou décadas.
Kid Abelha — No Meio da Rua · Rock in Rio, 2001.
Metrô — Beat Acelerado ainda sabe exatamente como entrar.
Virginie Boutaud.
Alec Haiat.
Yann Laouenan.
Daniel Roland.
Dany Roland.
E um som que deixou claro que new wave não precisava falar inglês para parecer completamente em casa dentro daquela década.
Metrô — Beat Acelerado · Showlivre, 2016.
Plebe Rude — Até Quando Esperar não ficou esperando.
Brasília produziu bandas que pareciam falar diretamente com uma juventude que tinha muito pouco interesse em fingir que estava tudo ótimo.
Plebe Rude está nessa história.
Plebe Rude — Até Quando Esperar · ao vivo em Brasília.
RPM — agora presta atenção em Luiz Schiavon.
Paulo Ricardo está na frente.
Tudo bem.
Agora procure Luiz Schiavon.
Teclados.
Arquitetura.
Camadas.
E uma responsabilidade enorme na identidade sonora do RPM.
RPM — Olhar 43 · ao vivo.
Tokyo — Garota de Berlim. Antes de muita gente lembrar só de Supla, havia uma banda inteira.
Supla naturalmente virou o rosto mais reconhecido.
Mas uma banda nunca deveria desaparecer atrás do integrante que a televisão resolveu transformar em personagem.
Tokyo — Garota de Berlim · ao vivo.
Ultraje a Rigor — irreverência também pode ter banda afiada por baixo.
É fácil prestar atenção apenas na letra.
Só que humor funciona melhor quando a música não está fazendo corpo mole.
Ultraje a Rigor — Nada a Declarar · Rock in Rio.
Nenhum de Nós — Astronauta de Mármore e a prova de que uma música pode nascer em outro idioma e ganhar outra vida.
“Starman” está lá atrás.
David Bowie está lá atrás.
Mas “O Astronauta de Mármore” construiu uma história própria dentro da música brasileira.
Tradução?
Versão?
Releitura?
O rótulo importa menos do que o fato de que uma geração inteira conheceu aquela melodia por outra porta.
Nenhum de Nós — O Astronauta de Mármore · ao vivo.
Os Paralamas do Sucesso — Meu Erro. Simples até você tentar montar aquilo direito.
Herbert Vianna.
Bi Ribeiro.
João Barone.
Três músicos.
Muito espaço.
E uma banda que sempre soube que trio não significa som pequeno.
Os Paralamas do Sucesso — Meu Erro · ao vivo.
Violeta de Outono — nem todo Brasil dos anos 80 queria tocar no mesmo lugar.
Enquanto algumas bandas corriam em direção ao rádio, outras construíam atmosferas mais psicodélicas, sombrias e menos interessadas em refrões instantâneos.
Violeta de Outono representa essa outra porta.
Violeta de Outono — Declínio de Maio · SESI, 2005.
O Brasil não recebeu os anos 80. Pegou aquilo que vinha de fora, misturou com o que já existia aqui e devolveu outra coisa.
Algumas músicas não queriam mudar o mundo. Queriam fazer você levantar.
Italo disco, euro-pop, hi-NRG e synthpop continental criaram uma coleção de refrões que atravessaram clubes, rádios, fitas, festas e fronteiras.
Baltimora — Tarzan Boy e aquele “oh-oh-oh” que se recusa a morrer.
Existem músicas cuja identidade cabe em segundos.
“Tarzan Boy” é uma delas.
Você não precisa esperar o refrão inteiro.
Algumas sílabas e pronto.
Já voltou.
Baltimora — Tarzan Boy · live, 1985.
Men Without Hats — Safety Dance. Sim, pode dançar se quiser.
Às vezes a música sobrevive justamente porque não se leva mais a sério do que precisa.
Men Without Hats — Safety Dance · Montreal, 1985.
Nem toda música precisa carregar uma tese. Às vezes três minutos bem feitos já são trabalho suficiente.
Décadas são péssimas em obedecer fronteiras.
Algumas das músicas que fizeram parte da experiência dos anos 80 nasceram antes. Outras continuaram depois. Memória não consulta ficha técnica antes de guardar alguma coisa.
ABBA — I Have a Dream e a fronteira que não existe.
ABBA começou muito antes dos anos 80.
Mas continuou sendo ouvido dentro deles.
E isso basta.
A experiência de uma década nunca é composta apenas por músicas lançadas dentro daqueles dez anos.
ABBA — I Have a Dream · ABBA In Concert.
Bee Gees — Too Much Heaven. Sim, 1979. E daí?
Barry.
Robin.
Maurice.
Harmonia vocal que virou assinatura.
E uma música que atravessou a virada de década sem pedir autorização ao calendário.
Bee Gees — Too Much Heaven · UNICEF, 1979.
Enigma — quando a década seguinte mostrou até onde algumas ideias tinham chegado.
Enigma já pertence oficialmente a outro capítulo temporal.
Mas Michael Cretu, sintetizadores, sampling, atmosfera e uma maneira de misturar tradição, tecnologia e pop mostram claramente uma estrada que não começou do nada em 1990.
Então terminamos este bloco olhando para frente.
Vozes associadas a Return to Innocence · apresentação em Tel Aviv.
A década terminou. As ideias não.
Achou que tínhamos terminado?
Não. Aquilo que você viu até aqui foi a viagem editorial. Agora vem o arquivo.
Porque seria fácil escolher apenas os nomes gigantes, os sucessos óbvios e as bandas que continuam estampando camisetas quarenta anos depois.
Só que os anos 80 não foram construídos apenas por quem permaneceu famoso.
Existiram artistas enormes.
Artistas pequenos.
Bandas que duraram décadas.
Projetos que mal chegaram ao segundo disco.
Gente que lotou estádio.
Gente que viveu principalmente em clubes.
Gente que você lembra imediatamente.
E gente cujo nome talvez faça você parar e pensar:
“Meu Deus. Eu tinha esquecido completamente dessa droga.”
Isto não é um ranking. Não existe primeiro lugar. Não existe último. É um arquivo em construção.
A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L
M
N
O
P
Q
R
S
T
U
V
W
X
Y
Z
E antes que alguém mande mensagem indignado: sim, provavelmente ainda falta alguém.
Faltou sua banda.
Eu sabia que você chegaria aqui.
Você passou pela new wave.
Synthpop.
Pós-punk.
Gothic.
Pop.
Rock.
Brasil.
Europa.
A–Z.
E ainda está pensando:
“MAS COMO ESSA DROGA NÃO COLOCOU A MINHA?”
Excelente.
Então encontramos exatamente o que queríamos.
Porque este arquivo não nasceu para ser fechado.
Nasceu para crescer.
Talvez tenha faltado uma banda.
Talvez um artista.
Talvez uma música.
Talvez aquele baixista que você acha que ninguém mais percebe.
Talvez uma performance ao vivo escondida num canto do YouTube que você encontrou às três da manhã e nunca mais conseguiu esquecer.
Então não guarde para você.
Qual música deveria estar aqui?
Artista.
Música.
E principalmente:
por quê?
Não quero apenas uma lista.
Conte a história.
Onde você estava?
Quem estava com você?
O que aquela música devolve?
Tem algum músico naquela gravação que todo mundo ignora e você acha absurdo ninguém mencionar?
Existe uma versão ao vivo que muda completamente a música?
Manda.
Talvez entre aqui.
Talvez vire uma matéria.
Talvez entre na programação da Passport.
Talvez faça outro Nômade lembrar de alguma coisa que também estava esquecida.
Mandar minha sugestão →Uma lista feita por uma pessoa é memória. Um arquivo construído por muita gente começa a virar história.
Talvez os anos 80 não tenham sobrevivido.
Talvez nós tenhamos carregado alguma parte deles conosco.
Nós envelhecemos.
Os músicos também.
Algumas bandas terminaram.
Algumas brigaram.
Algumas voltaram.
Algumas voltaram sem alguém que parecia impossível substituir.
Alguns daqueles músicos já não estão aqui.
Algumas casas de show fecharam.
Algumas cidades mudaram.
Fitas cassete viraram objetos estranhos para uma geração inteira.
Videoclipes deixaram de depender de horário na televisão.
O rádio deixou de ser a única pessoa na sala decidindo o que você ouviria depois.
E aquela década que parecia tão moderna virou história.
Só que existe uma coisa estranha.
Aperte play.
A bateria entra no mesmo segundo.
O baixo desce pela mesma nota.
O sintetizador abre a mesma porta.
A voz chega exatamente onde sempre chegou.
E por alguns minutos...
talvez você não esteja em 2026.
Talvez esteja num quarto.
Talvez exista um aparelho de som perto da cama.
Talvez uma fita esteja esperando para ser gravada.
Talvez alguém tenha acabado de aparecer na televisão.
Talvez você tenha doze anos.
Talvez exista um pôster na parede.
Talvez seja Debbie Gibson.
Não interessa.
Eu não vi nada.
Talvez a música não tenha preservado os anos 80. Talvez tenha preservado quem nós éramos quando os ouvimos.
E talvez seja por isso que, quarenta anos depois, ainda estamos aqui discutindo baixo de Duran Duran, bateria de Depeche Mode, sintetizadores de Yazoo, Simon Gallup, Alexandra Merl, Debbie Gibson, guitarras, vozes, fitas, shows e aquela música que você jura que deveria estar nesta página.
Tudo bem.
Manda ela.
O arquivo ainda está aberto.
Mr. Nomad
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