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Polyphia Be Not Afraid: por que o novo álbum muda o som da banda?

Polyphia · Rise Records

Tire os olhos de Tim Henson por alguns minutos. O quinto álbum do Polyphia começa a fazer sentido quando Scott LePage, Clay Gober e Clay Aeschliman voltam para dentro da fotografia.

MR. NOMADATUALIZADO · 01/09/2026

Uma guitarra de oito cordas pode chamar atenção. Um riff pode virar algoritmo. Mas uma banda só muda de idioma quando todos os músicos começam a falar a nova língua ao mesmo tempo.

Be Not Afraid, quinto álbum de estúdio do Polyphia, chega em 23 de outubro de 2026 pela Rise Records. A notícia é simples. A história não.

Porque o Polyphia não está tentando apenas fazer um disco mais pesado. Está tentando descobrir até onde pode empurrar guitarra, baixo, bateria, programação e música eletrônica sem perder aquela impressão estranha de que quatro músicos estão discutindo em altíssima velocidade — e, por algum motivo, todos entendem a conversa.

Polyphia ao vivo com Tim Henson, Scott LePage, Clay Gober e Clay Aeschliman
Créditos: Passport Radio
PASSPORT RADIO · RESPOSTA RÁPIDAO que é Be Not Afraid?

É o quinto álbum do Polyphia, anunciado para 23 de outubro de 2026. Os primeiros sinais, CAN YOU FEEL IT e POWER IN THE BLOOD, apontam para guitarras mais pesadas, oito cordas, texturas eletrônicas e uma composição menos preocupada em caber numa definição tradicional de prog metal.

01 · A PERGUNTA ERRADA

Polyphia ficou mais pesado?

Sim. Mas essa é a pergunta pequena.

A pergunta grande é: o que acontece quando uma banda instrumental que transformou virtuosismo em melodia começa a tratar peso e música eletrônica como parte da própria gramática?

Tim Henson já vinha procurando mais energia para o palco. Em CAN YOU FEEL IT, guitarras de oito cordas encontram pulsação de pista. Em POWER IN THE BLOOD, a ideia deixa de parecer acidente e começa a parecer direção.

Não escute apenas a quantidade de notas. Escute o peso entre elas.

02 · QUATRO PESSOAS, NÃO DUAS GUITARRAS

Quem são os integrantes do Polyphia — e quem faz esse som existir?

Tim Henson e Scott LePage ocupam naturalmente a frente da fotografia. São guitarristas com vocabulários reconhecíveis, instrumentos associados aos próprios nomes e uma relação quase coreográfica no palco.

Mas atrás da manchete estão Clay Gober, no baixo, e Clay Aeschliman, na bateria. Tire um deles e a matemática muda.

Gober não serve apenas como fundação grave. O baixo frequentemente entra na conversa rítmica como outra voz percussiva, escolhendo quando colar na bateria e quando atravessar a guitarra. Aeschliman precisa fazer algo igualmente ingrato: sustentar precisão suficiente para que o labirinto não desabe sem transformar a música numa demonstração clínica.

SHOW · POLYPHIA · PLAYING GOD + G.O.A.T. · MEXICO CITY · 2024
COMO ESCUTARPrimeiro Tim. Depois pare de olhar para Tim.

Volte o vídeo. Procure Scott e compare os ataques. Depois isole Clay Gober. Por último, fique na bateria de Clay Aeschliman. Só então devolva os quatro ao mesmo tempo. A música que parecia “guitarra impossível” vira arranjo.

03 · TIM HENSON NÃO É A BANDA

Por que Tim Henson mudou a maneira de compor guitarra?

Uma das ideias mais interessantes desta fase é quase uma inversão: em vez de começar obrigatoriamente pelo desenho mecânico da guitarra, Henson passou a explorar linhas que poderiam nascer como frase vocal e depois migrar para o instrumento.

Isso ajuda a explicar por que certas melodias do Polyphia grudam mesmo quando ninguém está cantando. A guitarra assume respiração, ataque, pausa e resposta como se estivesse ocupando o espaço de uma voz.

Mas uma voz precisa de interlocutores. Scott responde. O baixo desloca o chão. A bateria decide se aquela frase vai flutuar ou bater.

Tim Henson e Polyphia tocando Playing God ao vivo em 2024
Créditos: Passport Radio
04 · SCOTT LEPAGE

O segundo guitarrista que impede o Polyphia de virar monólogo

Scott LePage é essencial justamente porque não existe para duplicar Henson. Quando duas guitarras ocupam regiões próximas, a tentação é medir quem toca mais. O interessante é ouvir quem deixa espaço.

Uma guitarra pode assumir a figura principal enquanto a outra trabalha textura, resposta, harmonia ou ataque. Em seguida, os papéis trocam. O ouvido percebe movimento antes mesmo de saber explicar por quê.

É aí que o Polyphia deixa de ser uma vitrine de técnica e vira banda.

05 · CLAY GOBER

O baixo do Polyphia está escondido porque você está olhando para o lugar errado

Faça um teste brutalmente simples. Pegue uma performance ao vivo e tente ignorar as guitarras por trinta segundos.

Procure o baixo.

Clay Gober trabalha num território em que grave e percussão se misturam. O resultado não é apenas “peso”. É direção. Quando o baixo encosta na bateria, a música ganha chão; quando se desprende, abre outra linha dentro do arranjo.

Essa é uma das chaves para entender por que o Polyphia consegue soar cheio sem depender de uma parede permanente de acordes.

06 · CLAY AESCHLIMAN

Quem segura a arquitetura quando todo mundo resolve quebrar a linha reta?

O baterista.

Clay Aeschliman precisa organizar mudanças, acentos, silêncios e impactos sem competir com a informação que já existe nas cordas. Em música técnica, tocar muito pode ser fácil. Escolher o que não tocar é outra disciplina.

Escute o bumbo em relação ao baixo. Depois a caixa em relação às guitarras. A bateria não está “atrás”. Está negociando o tempo com todos.

07 · OITO CORDAS E PISTA DE DANÇA

O que muda com as guitarras de oito cordas no novo Polyphia?

A extensão grave oferece mais território, mas o instrumento sozinho não cria linguagem. O que interessa em 2026 é a combinação: riffs graves, processamento, pulsação eletrônica e a velha obsessão da banda por fraseado.

É por isso que chamar a nova fase apenas de djent é insuficiente. Chamar apenas de prog também. O ponto não é encontrar uma gaveta perfeita. É perceber que a banda está usando ferramentas de mundos diferentes para construir tensão física.

08 · POWER IN THE BLOOD

O que POWER IN THE BLOOD revela sobre Be Not Afraid?

Revela que CAN YOU FEEL IT não era uma excursão isolada. Há uma direção mais pesada e eletrônica sendo desenhada.

O vídeo de POWER IN THE BLOOD foi filmado no Rio de Janeiro e usa a Igreja de São Francisco da Penitência como parte de um contraste deliberado entre arquitetura histórica, dourado barroco e linguagem contemporânea.

Mas aqui fica uma regra Passport: videoclipe explica imagem. Show explica músico. Para entender a banda, volte ao palco.

09 · PLAYING GOD AO VIVO

O que uma música revela quando sai do estúdio?

SHOW · PLAYING GOD · POLYPHIA · MEXICO CITY · 13/07/2024

No estúdio, precisão pode ser editada, empilhada e tratada. No palco existe corpo, mão, atraso microscópico, ataque e reação.

Veja Playing God e repare menos na pergunta “como alguém toca isso?” e mais em “como quatro pessoas mantêm isso respirando?”. A segunda pergunta é muito mais interessante.

PASSPORT MUSIC DNAOUVIR → ISOLAR → IDENTIFICAR → CONECTAR → REUNIR.

Guitarra não existe sozinha. Baixo não é rodapé. Bateria não é metrônomo. A performance aparece quando as funções voltam a se tocar.

10 · BE NOT AFRAID

Quando sai o novo álbum do Polyphia?

Be Not Afraid está previsto para 23 de outubro de 2026, pela Rise Records. Será o quinto álbum de estúdio do grupo e sucede Remember That You Will Die, de 2022.

A turnê norte-americana originalmente planejada para 2026 foi deslocada para o início de 2027. Isso transforma os próximos meses numa espécie de laboratório público: primeiro ouviremos o disco; depois veremos como esse material sobrevive ao palco.

11 · A PERGUNTA QUE FICA

Polyphia ainda é prog metal?

Talvez. Talvez essa pergunta já tenha envelhecido.

O mais interessante no Polyphia não é decidir qual etiqueta vence. É observar uma banda que descobriu cedo demais que repetir a própria inovação é apenas outra forma de conservadorismo.

Então volte ao show.

Escute Tim.

Depois Scott.

Depois Clay Gober.

Depois Clay Aeschliman.

Agora reúna tudo.

Se Be Not Afraid cumprir o que os primeiros sinais prometem, o novo álbum não será importante porque o Polyphia tocou mais pesado.

Será importante porque quatro músicos decidiram mudar a maneira como a mesma banda respira.

PASSPORT RADIO · CONTINUE OUVINDO

Quer entender o Polyphia antes de ouvir Be Not Afraid? Assista às performances acima com fones. Uma vez para a guitarra. Uma para o baixo. Uma para a bateria. Na quarta, escute a banda.

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PASSPORT RADIO · EDITORIAL

Não procure apenas a nota impossível. Procure a pessoa que tornou possível que aquela nota tivesse onde cair.