Los Angeles. 30 de agosto de 2026.
Um cemitério chamado Hollywood Forever.
Billie Joe Armstrong. Tim Armstrong. Travis Barker. CJ Ramone.
Green Day. Rancid. Blink-182. Ramones.
Cinquenta anos depois do disco que deveria ter transformado quatro sujeitos de Nova York em estrelas — e não transformou — outra geração estava tocando aquelas músicas como se fossem patrimônio genético.

Como os Ramones começaram?
Antes do uniforme existir, havia quatro jovens de Forest Hills, Queens.
Jeffrey Hyman virou Joey Ramone. John Cummings virou Johnny. Douglas Colvin virou Dee Dee. Thomas Erdelyi virou Tommy.
O sobrenome comum fazia parecer que eram irmãos.
Não eram.
Talvez isso explique muita coisa.
A formação que se tornou clássica encontrou rapidamente uma lógica brutal: músicas curtas, poucos acordes, quase nenhum espaço desperdiçado e uma imagem que parecia simples demais para ter sido calculada.
Jaquetas de couro. Jeans. Tênis. Cabelo. Volume.
E contagem.
One-two-three-four.
02 · CBGBPor que o CBGB foi tão importante para os Ramones?
Porque ali havia uma sala para uma música que ainda não tinha mercado.
Em 1974, os Ramones começaram a aparecer no CBGB, em Manhattan, dentro de uma cena que também reuniria nomes como Television, Patti Smith, Blondie e Talking Heads.
O palco era pequeno.
A ideia era enorme.
Enquanto o rock dos anos 70 podia significar solos longos, virtuosismo e espetáculos cada vez maiores, os Ramones faziam o movimento contrário.
Tiravam.
Encurtavam.
Aceleravam.
Uma música terminava e a próxima parecia já estar atrasada.
O primeiro disco dos Ramones foi um sucesso?
Não.
E essa é uma das melhores partes da história.
Ramones saiu em 1976 pela Sire. Quatorze músicas. Pouco mais de meia hora. Uma capa que se tornaria imediatamente reconhecível.
Mas reconhecimento histórico e sucesso comercial não chegaram juntos.
O álbum alcançou apenas o número 111 da parada americana e vendeu cerca de seis mil cópias no primeiro ano.
Seis mil.
Décadas depois, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos colocaria esse mesmo álbum no National Recording Registry por sua importância cultural, artística e histórica.
Algumas derrotas só precisam de tempo para revelar que estavam ganhando.
04 · A VIAGEM QUE ACELEROU A INGLATERRAComo os Ramones influenciaram o punk britânico?
Em julho de 1976, a banda chegou à Inglaterra.
O punk britânico já estava se formando, mas a velocidade e a economia dos Ramones funcionaram como uma demonstração prática.
Joe Strummer, do Clash, lembraria a intensidade daquela experiência. A influência atravessou Sex Pistols, Clash e Damned e depois continuou avançando por hardcore, alternativo, grunge e além.
O curioso é que os Ramones não precisaram vender milhões para fazer isso.
Precisaram ser vistos pelas pessoas certas.
05 · JOEY E JOHNNYPor que Joey Ramone e Johnny Ramone brigaram?
Porque eram duas personalidades radicalmente diferentes presas dentro da mesma banda.
Joey era o cantor alto, estranho, vulnerável e de sensibilidade pop.
Johnny era disciplina, controle e método.
As diferenças políticas eram profundas.
Mas houve também Linda.
Linda Danielle havia se relacionado com Joey e depois iniciou um relacionamento com Johnny, com quem se casaria.
A ferida nunca desapareceu de verdade.
O extraordinário não é que dois homens assim tenham brigado.
É que continuaram entrando juntos numa van, num avião e num palco por anos.
Profissionalmente, a máquina funcionava.
Pessoalmente, partes dela estavam quebradas.
06 · QUEM SAIU DOS RAMONES?Por que a formação dos Ramones mudou?
Tommy deixou a bateria depois dos primeiros anos de estrada, embora continuasse ligado à produção. Marky Ramone assumiu e se tornou peça central da história. Richie Ramone também passou pela bateria antes do retorno de Marky.
Em 1989 veio uma ruptura maior.
Dee Dee saiu.
O baixista, compositor e uma das fontes fundamentais da identidade da banda deixou o grupo depois de anos turbulentos.
A solução foi CJ Ramone.
Mais jovem, energético e capaz de cantar, CJ entrou numa banda que poderia ter decidido parar.
Ela fez o contrário.
Continuou por mais sete anos.
07 · SUCESSO SEM SUCESSOPor que os Ramones nunca venderam tanto quanto as bandas que influenciaram?
Porque influência e mercado são medidas diferentes.
Os Ramones tinham músicas pop escondidas sob guitarras serradas e velocidade, mas nunca se converteram numa máquina de hits do tamanho que imaginavam.
Enquanto isso, a linguagem escapou deles.
Hardcore aprendeu com a velocidade.
Indie aprendeu com o faça-você-mesmo.
Grunge aprendeu com a recusa do excesso.
E gerações posteriores de punk melódico transformaram aquela fórmula em enormes carreiras comerciais.
Quando o Rock & Roll Hall of Fame os recebeu em 2002, Eddie Vedder fez a indução.
Para Seattle, disse ele, os Ramones eram os Beatles.
Isso diz mais sobre o tamanho deles do que uma parada de vendas.
08 · 1996Por que os Ramones acabaram?
Porque chegou um momento em que continuar exigia mais do que aquela estrutura conseguia oferecer.
Eles haviam passado mais de duas décadas em turnê, atravessado trocas de integrantes e convivido com frustração comercial e conflitos internos.
Joey e Johnny já carregavam anos de distância pessoal.
Dee Dee já não estava na formação.
A saúde de Joey também se tornava uma questão séria.
O encerramento não foi uma explosão súbita.
Foi desgaste acumulado.
09 · O ÚLTIMO SHOWQuando foi o último show dos Ramones?
6 de agosto de 1996.
The Palace. Hollywood.
Depois de mais de duas décadas, a banda decidiu transformar a despedida em uma reunião de amigos, descendentes e cúmplices.
Entre os convidados estiveram Eddie Vedder, Lemmy, Chris Cornell, Tim Armstrong, Lars Frederiksen e Dee Dee Ramone.
Era uma despedida.
Mas, vista hoje, parece também uma fotografia da árvore genealógica que eles haviam criado.
10 · DEPOISO que aconteceu com Joey, Dee Dee, Johnny e Tommy Ramone?
Joey morreu em 2001.
Dee Dee, em 2002.
Johnny, em 2004.
Tommy, o último sobrevivente da formação original, em 2014.
A formação clássica desapareceu fisicamente em menos de duas décadas depois do fim da banda.
As músicas fizeram o movimento oposto.
Ficaram maiores.
11 · 30 DE AGOSTO DE 2026Quem tocou no tributo de 50 anos dos Ramones?
No Hollywood Forever Cemetery, em Los Angeles, o aniversário de cinquenta anos do primeiro álbum ganhou uma imagem que teria parecido absurda em 1976.
A Cretin Family reuniu Tim Armstrong, do Rancid; Billie Joe Armstrong, do Green Day; Travis Barker, do Blink-182; e CJ Ramone.
O evento oficial ainda recebeu convidados surpresa, entre eles Billy Idol, Fred Armisen e The Linda Lindas.
John Travolta apresentou a noite.
Não era uma reunião dos Ramones.
Isso não existe mais.
Era algo talvez mais revelador.
Os filhos musicais tocando o idioma dos pais.
12 · CINQUENTA ANOSPor que os Ramones ainda são tão influentes?
Porque provaram que simplificar não significa empobrecer.
Uma música poderia durar dois minutos e mudar uma vida.
Uma guitarra não precisava mostrar tudo o que sabia.
Uma banda não precisava parecer inalcançável.
E quatro sujeitos poderiam subir num palco parecendo uma gangue e fazer milhares de outros sujeitos pensarem:
Eu também consigo montar uma banda.
Essa talvez seja a verdadeira medida da influência.
Não quantas pessoas compraram seu primeiro disco.
Quantas começaram alguma coisa depois de ouvi-lo.
Em 1976, o mercado não entendeu completamente os Ramones.
O futuro entendeu.
Em 1996, eles terminaram.
Em 2026, Billie Joe Armstrong, Tim Armstrong, Travis Barker e CJ Ramone estavam num cemitério em Hollywood tocando aquelas músicas.
Joey não estava.
Johnny não estava.
Dee Dee não estava.
Tommy não estava.
Mas o som que eles inventaram continuava contando até quatro.
E cinquenta anos depois, o mundo ainda sabia exatamente o que fazer quando chegava o quatro.
Mr. Nomad
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