Rio de Janeiro.
5 de setembro de 2026.
Palco Mundo.
Bring Me The Horizon.
As luzes apagam e milhares de olhos procuram Oliver Sykes.
Natural.
Ele é a voz, o rosto, o movimento no centro da tempestade.
Mas hoje vamos fazer outra coisa.
Nômades, tirem os olhos de Oli por alguns minutos.
Procurem a banda.

Quando peso significava impacto imediato
Volte ao começo.
Não havia arena gigantesca.
Não havia telão transformando o palco em videogame.
Não havia orquestra.
Havia proximidade.
Suor.
Ruído.
Uma banda jovem comprimindo energia até ela parecer grande demais para a sala.
Oliver Scott Sykes estava na frente. Mas o corpo daquilo vinha de outro lugar.
Lee Malia.
Guitarra.
Matthew Kean.
Baixo.
Matthew Nicholls.
Bateria.
O BMTH inicial podia ser descrito com gêneros. Deathcore. Metalcore. Mas rótulo não explica sensação.
Escute o ataque da guitarra.
Depois a bateria.
Depois procure o baixo no espaço entre os dois.
O peso não está em uma peça.
Está na colisão.
Agora faça um exercício.
Esqueça o vocal por alguns segundos.
Procure Nicholls.
O impacto não vem apenas da velocidade. Vem do momento em que ele decide abrir espaço e do momento em que fecha tudo outra vez.
Depois desça para Kean.
O baixo não precisa pedir atenção para cumprir sua função.
Ele precisa fazer o chão existir.
02 · A BANDA DESCOBRE ESPAÇOLee Malia não precisava colocar mais guitarra. Precisava saber quando retirar.
Bandas pesadas aprendem cedo a adicionar.
Mais distorção.
Mais velocidade.
Mais camadas.
Mais impacto.
O passo difícil é descobrir que retirar também pesa.
Lee Malia se tornou essencial justamente aí.
Escute como os riffs passaram a respirar. Como uma nota sustentada pode preparar um impacto maior do que uma parede contínua. Como a guitarra deixa espaço para sintetizadores, voz, bateria e silêncio.
É fácil ouvir BMTH e pensar que a eletrônica substituiu guitarra.
Talvez tenha acontecido o contrário.
A eletrônica obrigou a guitarra a escolher melhor onde entrar.

Coloque uma orquestra dentro da banda. Agora tente não desaparecer.
Londres.
22 de abril de 2016.
Royal Albert Hall.
Uma banda acostumada a guitarras enormes entra em um dos espaços mais simbólicos da música britânica acompanhada pela Parallax Orchestra.
A escolha óbvia seria aumentar tudo.
Mas escute Doomed.
Primeiro não procure peso.
Procure profundidade.
Cordas ocupam o ar.
Texturas eletrônicas desenham a distância.
A bateria espera.
A guitarra não tenta vencer a orquestra.
E quando a banda inteira finalmente chega, o impacto é maior porque alguém teve disciplina suficiente para esperar.
Volte ao começo.
Ouça novamente.
Desta vez procure Matt Nicholls.
Depois Lee.
Depois Kean.
Agora coloque a orquestra de volta.
Peso também pode ser aquilo que você segura antes de soltar.
04 · JORDAN FISHQuando o teclado deixa de ser decoração e começa a alterar a arquitetura
Jordan Keith Attwood Fish não entrou no Bring Me The Horizon para colocar um teclado atrás das guitarras.
Sua passagem pela banda ajudou a empurrar composição, programação, texturas, melodias e produção para o centro da linguagem do grupo.
Isso importa porque existe uma diferença enorme entre acrescentar eletrônica a uma banda de rock e começar a compor pensando eletronicamente.
No primeiro caso, você coloca uma camada.
No segundo, muda a planta da casa.
Ouça Can You Feel My Heart, Sleepwalking, Doomed, MANTRA, Parasite Eve.
A pergunta deixa de ser “onde está o sintetizador?”.
A pergunta passa a ser:
quanto da música ainda existiria da mesma forma se você retirasse essa maneira de pensar?
05 · READINGQuando a banda que parecia pertencer a clubes começa a controlar um festival
Reading Festival.
2022.
A escala mudou.
Mas observe o que aconteceu com a música.
Ela também aprendeu a ocupar distância.
Refrões maiores.
Pausas capazes de comandar dezenas de milhares de pessoas.
Eletrônica funcionando como transição, tensão e cenário.
Guitarra entrando para cortar a massa.
Bateria transformando partes diferentes de uma canção em um único movimento físico.
Não é simplesmente uma banda pesada tocando para mais gente.
É uma banda que aprendeu a escrever para um espaço maior sem precisar abandonar a violência que a trouxe até ali.
Nômades.
Olhem para Oli.
Agora tirem os olhos dele.
Procurem Lee quando o riff reaparece.
Procurem Nicholls no instante em que a multidão pula como um único corpo.
Procurem Kean debaixo de tudo.
E procurem a produção entre uma música e outra.
O show também virou instrumento.
06 · QUANDO JORDAN SAISe um dos arquitetos da mudança vai embora, a transformação vai embora com ele?
Em dezembro de 2023, Bring Me The Horizon e Jordan Fish anunciaram que seguiriam caminhos separados.
É aqui que uma história fácil escreveria “fim de uma era”.
É verdade.
Mas não basta.
Porque uma influência pode deixar de estar fisicamente na sala e continuar dentro da maneira como os outros passaram a pensar.
O BMTH não voltou ao ponto anterior.
Também não tentou fingir que nada havia acontecido.
Continuou empurrando metal, pop, hardcore, glitch, eletrônica e melodias umas contra as outras.
POST HUMAN: NeX GEn soa como uma banda que já não precisa pedir licença a uma categoria.
E talvez essa seja a transformação mais difícil de todas.
Não trocar de gênero. Parar de precisar de um.

Agora escute o BMTH depois da mudança
Não precisamos imaginar.
Existe palco.
Existe público.
Existe uma banda funcionando depois da saída de Jordan.
Rock am Ring.
2025.
Um set atravessando DArkSide, MANTRA, Happy Song, Teardrops, AmEN!, Kool-Aid, Shadow Moses, Kingslayer, Can You Feel My Heart, Doomed, Drown e Throne.
Quase uma aula sobre quantos Bring Me The Horizon cabem dentro do mesmo nome.
Comece pela bateria.
Matt Nicholls.
Não conte batidas.
Observe como ele muda de linguagem conforme o repertório atravessa épocas diferentes.
Depois vá para Lee Malia.
Não procure apenas riffs.
Procure os espaços em que ele não toca.
Depois Matt Kean.
Baixo.
Procure aquilo que continua conectando bateria e guitarra quando programação, samples e vozes adicionais atravessam o arranjo.
Finalmente Oli.
Agora a voz parece diferente porque você já ouviu o que existe embaixo dela.
08 · QUATRO SHOWS, QUATRO BANDAS?Não. Uma banda aprendendo novas maneiras de ser ela mesma.
Volte aos quatro palcos desta matéria.
O começo.
Royal Albert Hall.
Reading.
Rock am Ring.
Se você ouvir apenas a superfície, parecem bandas diferentes.
Se ouvir por dentro, começam a aparecer permanências.
A maneira de construir antecipação.
O contraste entre vulnerabilidade e explosão.
A relação física entre bateria e público.
O gosto por destruir a expectativa no instante em que ela começa a ficar confortável.
E a guitarra de Lee Malia, que aprendeu que peso não significa ocupar cada centímetro disponível.
Talvez Bring Me The Horizon não tenha ficado menos pesado.
Talvez tenha aumentado o número de lugares onde consegue esconder o peso.
09 · CIDADE DO ROCKEm 5 de setembro, não procure apenas a música que você conhece
O Rock in Rio apresenta Bring Me The Horizon pela primeira vez no Palco Mundo.
É uma chegada simbólica para uma banda que passou duas décadas recusando permanecer no tamanho em que nasceu.
Quando o show começar, você pode procurar Oli.
Pode esperar o refrão.
Pode filmar o riff.
Mas tente outra coisa.
Escute primeiro Matt Nicholls.
Depois Matt Kean.
Depois Lee Malia.
Procure a eletrônica.
Procure os vazios.
Procure aquilo que a banda aprendeu com cada versão anterior de si mesma.
Depois coloque Oli de volta.
Agora coloque tudo junto.
A pergunta nunca foi se Bring Me The Horizon ainda é deathcore.
A pergunta é se uma banda precisa permanecer onde nasceu para continuar sendo ela mesma.
E talvez a resposta esteja exatamente no lugar onde o BMTH sempre viveu:
um passo depois daquilo que esperavam dele.
Eu não escuto uma banda para descobrir em qual prateleira ela cabe. Escuto para descobrir quem está fazendo cada parede tremer — e o que acontece quando alguém decide derrubar a parede.
3... 2... 1... CLICK.
Fontes e contexto
Rock in Rio · line-up oficial e página do Bring Me The Horizon; Bring Me The Horizon · registros oficiais ao vivo; Royal Albert Hall / Teenage Cancer Trust; cobertura e registros de Reading Festival e Rock am Ring; entrevistas e cobertura histórica sobre a evolução da banda e a passagem de Jordan Fish.
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