Faltam dois dias.
No sábado, 5 de setembro de 2026, o Sepultura entra no Palco Mundo do Rock in Rio pela última vez.
Não é o último show da banda. Esse está marcado para 7 de novembro, no Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo.
Mas é uma despedida dentro da despedida.
E existe uma maneira muito fácil de contar essa história: quarenta e tantos anos, sucesso internacional, mudanças de formação, Arise, Chaos A.D., Roots, fim.
Não.
Mr. Nomad quer fazer outra coisa.
Tire os olhos do nome SEPULTURA por alguns minutos. Procure as pessoas que fizeram esse nome produzir som.

Quando será o último show do Sepultura?
7 de novembro de 2026.
São Paulo.
Mercado Livre Arena Pacaembu.
Antes disso existe o Rock in Rio. E isso importa porque o festival funciona quase como uma coleção de fotografias da banda em épocas diferentes.
O Sepultura que chega ao festival em 2026 não é a mesma formação que atravessou os anos 1980. Não é a mesma que gravou Roots. Não é a mesma que precisou descobrir como continuar depois de Max Cavalera. Não é sequer a mesma seção rítmica que começou a turnê de despedida.
E ainda assim, quando o riff entra, existe alguma coisa que o ouvido reconhece.
Como?
02 · NÃO EXISTE UM SEPULTURAQuantas bandas cabem dentro de uma banda?
Primeiro veio uma formação que nasceu em Belo Horizonte e aprendeu a transformar velocidade, precariedade, obsessão e metal extremo em identidade própria. Max Cavalera foi voz e guitarra. Igor Cavalera, bateria. Paulo Jr. ocupou o baixo. Andreas Kisser entrou e sua guitarra passou a ser parte decisiva da linguagem que levaria o grupo para fora do Brasil.
Mas formação não é uma ficha de cadastro.
Troque uma bateria e você muda onde a guitarra respira.
Troque uma voz e você muda a maneira como o riff parece cair sobre o tempo.
Troque um compositor e talvez você altere a própria pergunta que a música está fazendo.
Foi por isso que a saída de Max em 1996 não significava apenas procurar “outro vocalista”. A banda precisava descobrir se ainda existia uma identidade depois que uma das figuras centrais daquela identidade saiu.
Derrick Green entrou em 1997.
E aqui começa um dos erros mais preguiçosos que alguém pode cometer ao contar Sepultura: chamar tudo depois disso de “fase Derrick” e encerrar a análise.
Derrick não é apenas o homem que ficou no lugar de Max.
É uma presença vocal e física diferente. Outra massa. Outro ataque. Outra maneira de ocupar o palco. Outra relação com as sílabas e com o espaço entre guitarra e bateria.
Se você compara apenas timbres de voz, perde a banda.
03 · ANDREASO que Andreas Kisser realmente faz no som do Sepultura?
Olhe menos para a quantidade de notas.
Escute a geometria.
Andreas Rudolf Kisser é guitarrista, compositor e também trabalha com violão e voz. No Sepultura, sua função não cabe na palavra “guitarrista”.
Há riffs que funcionam como paredes. Outros funcionam como motores. Há ataques secos em que o silêncio entre dois golpes é tão importante quanto o golpe. Há harmonias e texturas que impedem a música de virar apenas uma massa contínua de distorção.
Quando o Sepultura desacelera sem perder violência, preste atenção.
Peso não é velocidade.
Peso é relação.
A guitarra precisa encontrar baixo, bumbo e caixa no lugar certo. Quando encontra, uma nota pode parecer maior que vinte.
04 · PAULOVocê consegue ouvir Paulo Jr. quando o Sepultura começa a esmagar tudo?
Faça o teste.
Escolha uma performance ao vivo.
Primeiro procure a guitarra.
Fácil.
Depois procure a bateria.
Fácil também.
Agora desça.
Paulo Xisto Pinto Jr.
Baixo.
Não procure um solo. Procure a fundação.
Em música pesada, o baixo muitas vezes sofre a maior injustiça auditiva: quando faz exatamente o que precisa fazer, o ouvinte acha que está ouvindo apenas uma guitarra gigantesca.
Não está.
Parte do tamanho da guitarra é o baixo fazendo a guitarra parecer maior.
Retire essa camada e a parede perde concreto.
05 · A BATERIA MUDOUDe Igor Cavalera a Eloy Casagrande e Greyson Nekrutman: o Sepultura continua igual?
Não.
E ainda bem.
Igor Cavalera ajudou a estabelecer uma linguagem em que thrash, groove, tribalidade e percussão brasileira podiam conviver sem parecer adereço turístico.
Décadas depois, Eloy Casagrande trouxe outra combinação de potência, precisão, independência e impacto físico. Não era Igor imitado. Era outro baterista obrigando a mesma banda a respirar de outra maneira.
Quando Eloy saiu, Greyson Nekrutman assumiu a bateria para a turnê de despedida.
De novo: não procure um clone.
Procure a diferença.
Escute a caixa. O desenho do bumbo. A duração das viradas. O espaço deixado para o riff. A maneira como cada baterista empurra ou segura uma música.
É aí que a história deixa de ser biografia e vira som.
06 · BRASIL NÃO É ENFEITEPor que Roots e Ratamahatta mudaram a percepção mundial do Sepultura?
Porque a banda descobriu que não precisava esconder de onde vinha para parecer internacional.
Em Chaos A.D. e especialmente Roots, elementos rítmicos e culturais brasileiros deixaram de ser pano de fundo e entraram na arquitetura.
Isso não significa que antes não existisse Brasil ali. Significa que a relação ficou impossível de ignorar.
Ratamahatta é um exemplo quase didático do que acontece quando percussão não é colocada sobre uma música pronta como decoração. Ela participa da identidade do arranjo.
Escute como corpo, repetição, ataque e timbre produzem uma sensação que uma guitarra sozinha não conseguiria fabricar.
E depois volte para Roots Bloody Roots.
O riff é simples?
Essa é a pergunta errada.
A pergunta é: por que ele parece daquele tamanho?
Nômades, façam uma coisa.
Não assistam a esse vídeo como quem assiste a um documento velho.
Primeiro, bateria.
Depois, baixo.
Depois, guitarra.
Depois, Derrick.
Depois parem de separar.
Juntem tudo.
Essa última etapa é a mais importante.
07 · ROCK IN RIOPor que o show de 5 de setembro de 2026 importa?
Porque agora sabemos que existe um último capítulo.
A banda chega ao Rock in Rio em sua turnê de despedida e, segundo a programação oficial do festival, sobe ao Palco Mundo no dia 5. O próprio Andreas Kisser já falou sobre o desafio de montar um repertório para esse encontro e sobre a possibilidade de recuperar músicas que não aparecem sempre.
Há outra camada: dois meses depois, o nome Sepultura deixa de significar “uma banda que ainda pode tocar novamente no ano que vem”.
Passa a significar arquivo.
Memória.
Registro.
Isso muda nossa maneira de olhar para um show antes mesmo que ele aconteça.
Mas Mr. Nomad não quer que vocês passem a apresentação inteira esperando a lágrima cinematográfica do fim.
Quero que escutem.
08 · O TESTEO que ouvir no último Sepultura do Rock in Rio?
Derrick Green: não compare cada frase com Max. Escute como a voz atual ocupa o arranjo atual.
Andreas Kisser: procure o ataque e principalmente o espaço entre os ataques.
Paulo Jr.: tente perceber quanto do “tamanho” da guitarra vem da região grave sustentando tudo.
Greyson Nekrutman: procure decisões, não imitação. Onde ele coloca a caixa? Como fecha uma virada? Quanto espaço deixa antes do próximo riff?
Depois escute os quatro juntos.
Se aparecer percussão adicional, convidados ou alguma surpresa no repertório, faça a mesma coisa.
Quem entrou?
O que mudou?
O que aquela pessoa acrescentou que não estava ali cinco segundos antes?
NÃO ASSISTA APENAS À DESPEDIDA. ESCUTE A BANDA ACONTECENDO.
09 · E MAX? E IGOR? E ELOY?É possível contar a despedida sem transformar a história numa guerra de formações?
Tem que ser.
Max Cavalera importa.
Igor Cavalera importa.
Eloy Casagrande importa.
Derrick Green importa.
Greyson Nekrutman importa.
Andreas Kisser e Paulo Jr. importam.
Não porque todos fizeram a mesma coisa.
Justamente porque não fizeram.
Uma banda com mais de quatro décadas é uma sequência de relações humanas transformadas em frequência.
Há quem queira escolher “o verdadeiro Sepultura”.
Mr. Nomad prefere ouvir os diferentes Sepulturas que existiram.
Um não apaga o outro.
Um explica por que o seguinte precisou encontrar outro caminho.
10 · 7 DE NOVEMBROO que termina quando o Sepultura fizer o último show?
Os shows.
A banda como organismo em atividade.
Mas não o som.
Não termina o garoto que descobriu Arise e resolveu comprar uma guitarra.
Não termina o baterista que ouviu Igor e percebeu que metal podia conversar com ritmos que os manuais estrangeiros não colocavam na mesma página.
Não termina o baixista que aprendeu que sustentação também é identidade.
Não termina a geração que conheceu Derrick primeiro e só depois voltou para Max.
Não termina quem conheceu Eloy e foi procurar Igor.
É assim que uma banda continua depois que para.
Ela vira caminho para outra pessoa.
Dia 5, quando o Sepultura entrar no Rock in Rio, haverá uma tentação enorme de assistir à história.
Resista.
Por alguns minutos, escute-a.
Escute Derrick.
Escute Andreas.
Escute Paulo.
Escute Greyson.
E, nos espaços entre eles, talvez você também ouça Max, Igor, Eloy e todas as versões da banda que ficaram pelo caminho.
Uma despedida não apaga as formações anteriores.
Ela coloca todas no mesmo retrovisor.
Depois de mais de quatro décadas, talvez a pergunta não seja “qual é o verdadeiro Sepultura?”. Talvez seja: como uma banda conseguiu mudar tantas vezes sem deixar de nos fazer reconhecer aquele peso?
Agora aumenta.
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