
“Thriller” não foi apenas um disco: foi quando Michael Jackson obrigou a indústria da música a mudar
Mr. Nomad
Imagine trabalhar numa gravadora em 1984.
Você está numa convenção da CBS Records, no Havaí, assistindo à apresentação dos próximos lançamentos.
Disco novo.
Outro disco novo.
Mais um artista.
De repente, aparecem imagens de caminhões.
E uma voz anuncia:
“Lá se vai mais uma leva de álbuns Thriller, de Michael Jackson!”
Era uma brincadeira da Epic Records.
Só havia um problema:
nem parecia exagero.
Mais de um ano depois de chegar às lojas, em 30 de novembro de 1982, Thriller continuava vendendo mais de um milhão de cópias por mês somente nos Estados Unidos.
Não foi um sucesso.
Não foi um fenômeno.
Em determinado momento, parecia que Michael Jackson tinha encontrado algum botão secreto da indústria fonográfica e simplesmente deixado aquilo ligado.
Décadas depois, continuamos falando sobre Thriller.
Só que os milhões de discos explicam apenas uma parte da história.
Porque Thriller fez uma coisa muito maior:
mudou as regras enquanto estava jogando.
ANTES DE MICHAEL SALVAR A FESTA, A FESTA ESTAVA UMA MERDA
É fácil olhar para os anos 80 hoje e enxergar uma máquina musical gigantesca.
MTV.
Videoclipes.
Superastros.
Discos milionários.
Turnês enormes.
Só que, pouco antes de Thriller, a indústria americana estava apanhando.
As vendas haviam caído cerca de 50 milhões de unidades entre 1980 e 1982.
Na CBS, 13 de agosto de 1982 ganhou um apelido nada agradável:
“Sexta-Feira Negra.”
Houve uma demissão enorme.
Dan Beck, então executivo da Epic, lembraria que metade do departamento de marketing foi embora naquele dia.
Esse era o ambiente.
E então apareceu Michael Jackson.
A própria Epic reconheceria depois que Thriller foi a força que empurrou a gravadora para um de seus períodos mais lucrativos.
Vieram outros sucessos.
Cyndi Lauper.
Culture Club.
REO Speedwagon.
Flashdance.
Synchronicity, do The Police.
O público voltou às lojas.
Só que Michael já vinha preparando essa explosão havia alguns anos.
ANTES DE “THRILLER”, FOI PRECISO DERRUBAR UM MURO
Michael Jackson obviamente não apareceu em 1982.
O garoto já tinha crescido diante do planeta com o Jackson 5.
Já tinha carreira solo.
Já tinha hits.
Mas Off the Wall, de 1979, mudou sua posição no tabuleiro.
E existe um detalhe fundamental nessa história.
Naquela época, um artista negro podia ser empurrado automaticamente para uma divisão específica da gravadora e receber uma campanha direcionada quase exclusivamente ao chamado “mercado negro”.
A equipe de Michael não queria aquilo.
A ideia era muito mais simples:
coloquem a música na rua e deixem o público decidir.
Quando Don’t Stop ’Til You Get Enough apareceu, as equipes de promoção de R&B e pop trabalharam a música ao mesmo tempo.
Nada de:
primeiro tentamos aqui.
Depois, quem sabe, deixamos atravessar para lá.
A música atravessou.
Rock With You veio atrás.
Depois a faixa-título.
Depois She’s Out of My Life.
Ron Weisner, que administrava a carreira de Michael naquela época, resumiria aquilo perfeitamente:
“Off the Wall abriu algo no rádio que nunca mais se fechou.”
Quando chegou Thriller...
o muro já estava rachado.
MICHAEL QUERIA QUINCY JONES
E houve gente que não gostou muito da ideia.
Michael conheceu Quincy Jones trabalhando em The Wiz.
Quando sugeriu que Quincy produzisse Off the Wall, executivos da Epic temeram que ele fosse “jazz demais”.
Michael insistiu.
Ainda bem.
Porque quando os dois voltaram a trabalhar juntos em Thriller, a pergunta já não era simplesmente:
“Como fazemos outro disco bom?”
A ambição era maior.
Eles queriam um álbum que pudesse existir em vários mundos ao mesmo tempo.
R&B.
Pop.
Funk.
Disco.
Balada.
Rock.
Sem precisar escolher uma caixa.
Quincy enxergava em Michael uma disciplina absurda.
Michael enxergava em Quincy alguém capaz de transformar aquela ambição em música.
E os dois começaram a trabalhar.
MAIS DE 700 DEMOS.
Setecentas.
Mais de 700 demos analisadas.
Para terminar com...
nove músicas.
Isso talvez diga mais sobre Thriller do que qualquer estatística de vendas.
Não era:
“Está bom, coloca no disco.”
Era:
“Isso merece estar entre as nove?”
Michael escreveu The Girl Is Mine, Beat It, Billie Jean e Wanna Be Startin’ Somethin’.
Rod Temperton, que já havia escrito Rock With You, apareceu com uma composição chamada inicialmente Starlight Love.
Ela mudou.
Mudou bastante.
Acabou virando:
Thriller.
Human Nature nasceu depois que encontraram uma demo quase por acaso.
Outras músicas entraram.
Outras saíram.
E mesmo quando Greg Phillinganes achou que o álbum estava praticamente pronto, Quincy respondeu, em essência:
calma aí. Ainda falta coisa.
Michael não ficou exatamente feliz.
Só que foi desse perfeccionismo que apareceram peças como The Lady in My Life e Beat It.
EDDIE VAN HALEN ENTRA NA SALA
Quincy e Michael queriam que o disco atravessasse fronteiras musicais.
Então chegou a hora de fazer uma faixa de rock.
Não uma imitação comportada de rock.
Rock.
E quem aparece?
Eddie Van Halen.
O resultado foi Beat It.
A guitarra entrou rasgando uma música de Michael Jackson e ajudou a criar justamente aquilo que os dois procuravam:
uma faixa que uma rádio pop pudesse tocar...
uma rádio R&B pudesse tocar...
e uma rádio de rock ouvisse e pensasse:
espera aí.
Algumas tocaram.
E a reação foi enorme.
Beat It começou a aparecer em rádios de rock ao lado de nomes como Sammy Hagar e Bob Seger.
Michael Jackson simplesmente atravessou mais uma porta que diziam pertencer a outra pessoa.
AÍ O VINIL RESOLVEU ARRUMAR CONFUSÃO
O disco estava pronto.
Ou quase.
Quincy percebeu que havia música demais em cada lado do vinil.
E isso tinha consequência física.
Quanto mais música você tenta colocar num lado, mais apertados precisam ser os sulcos e mais comprometido pode ficar o som.
Então começaram a cortar.
A introdução de Billie Jean foi reduzida.
Um verso de The Lady in My Life caiu fora.
Agora terminou?
Não.
Michael e Quincy ainda não estavam satisfeitos.
Resultado:
remixaram o álbum inteiro durante um fim de semana.
Enquanto isso, a Epic devia estar olhando para o calendário de Natal e envelhecendo alguns anos por hora.
E AÍ O DISCO VAZOU
A ideia chegou a ser esperar até janeiro de 1983.
Só que as rádios começaram a receber o material.
E começaram a tocar.
Não uma faixa.
Várias.
Acabou a conversa.
Don Dempsey, da Epic, decidiu:
lança.
Thriller chegou oficialmente em 30 de novembro de 1982.
E trouxe outra mudança que hoje parece absolutamente banal.
Lançamento mundial simultâneo.
Antes, grandes discos podiam sair em momentos diferentes dependendo do país.
Com Michael, isso já estava virando um problema comercial gigantesco.
Depois de garantir que as fábricas ao redor do mundo conseguiriam produzir o álbum, a CBS apertou o botão praticamente ao mesmo tempo.
Funcionou.
Depois de Thriller, isso virou prática da indústria.
PRIMEIRO VEIO “THE GIRL IS MINE”
O dueto com Paul McCartney chegou ao número 2.
Grande sucesso.
Só que ainda não dava para enxergar direito o monstro que estava acordando.
Então veio:
Billie Jean.
E enquanto Billie Jean subia...
a Epic fez algo agressivo.
Jogou Beat It atrás.
Dois singles trabalhando públicos diferentes praticamente ao mesmo tempo.
A lógica era simples:
vamos impressioná-los.
Impressionaram.
Só que a história ainda estava começando.
“BILLIE JEAN” ENCONTROU UMA MTV QUE AINDA NÃO SABIA O QUE IA SE TORNAR
A MTV tinha apenas 16 meses.
E a relação da emissora com artistas negros era, para dizer o mínimo, problemática.
Sobre o que aconteceu quando Billie Jean chegou lá existem duas versões.
Uma diz que a MTV recusou inicialmente o clipe e que executivos da CBS pressionaram a emissora duramente, ameaçando retirar negócios.
Outra, defendida posteriormente por Les Garland, executivo da própria MTV, diz que não houve recusa definitiva nem ameaça e que essa história virou folclore.
As versões divergem.
O resultado, não.
Billie Jean entrou em alta rotação.
Oito exibições por dia.
E uma porta que estava estreita ficou muito maior.
Depois vieram mais espaços para artistas negros.
Prince.
Billy Ocean.
Eddy Grant.
A própria programação da MTV começou a escapar da prisão daquele formato inicial predominantemente branco e roqueiro.
Michael não simplesmente entrou na MTV.
A presença dele ajudou a mudar o que a MTV podia ser.
E ENTÃO ELE DEU ALGUNS PASSOS PARA TRÁS
16 de maio de 1983.
Motown 25: Yesterday, Today, Forever.
Michael entra para apresentar Billie Jean.
Luva brilhante.
Chapéu.
Palco.
E então...
moonwalk.
Hoje sabemos o que vai acontecer.
Naquela noite, milhões de pessoas não sabiam.
No dia seguinte, praticamente só se falava daquilo.
Fred Astaire ligou para Michael.
Pense nisso por alguns segundos.
Fred Astaire.
Ligando para parabenizar aquele rapaz pela dança que acabara de mostrar na televisão.
Não era mais apenas um álbum gigantesco.
Michael Jackson estava virando um acontecimento cultural.
E AINDA NEM TINHA CHEGADO O CLIPE DE “THRILLER”
Esse é o pedaço mais absurdo.
Billie Jean já havia acontecido.
Beat It já havia acontecido.
O moonwalk já havia acontecido.
As vendas estavam absurdas.
E então Michael decidiu transformar um videoclipe em...
cinema.
John Landis, diretor de An American Werewolf in London, assumiu a direção.
Duração:
aproximadamente 14 minutos.
Orçamento:
cerca de US$ 1 milhão.
Em 1983.
Ron McCarrell lembraria que os videoclipes normais da gravadora custavam algo como US$ 30 mil ou US$ 40 mil.
Quando viu o orçamento de Michael?
Quase caiu da cadeira.
E é compreensível.
Michael basicamente apareceu perguntando:
“E se, em vez de fazer um clipe, a gente fizer um pequeno filme de terror?”
A MTV PASSOU A MARCAR HORA PARA EXIBIR UM VIDEOCLIPE
O vídeo de Thriller estreou em 3 de dezembro de 1983.
Mais de um ano depois do álbum.
Normalmente isso seria tarde.
Com Thriller, aparentemente o conceito de “tarde” tinha sido cancelado.
A MTV pagou mais de US$ 1 milhão pelos direitos exclusivos de exibição.
Depois começou a anunciar horários específicos.
As pessoas sabiam quando Thriller seria exibido.
E apareciam.
A audiência disparava.
Um videoclipe virou programação com hora marcada.
Depois veio Making Michael Jackson’s Thriller, um documentário sobre a produção.
Foi exibido na televisão.
Foi vendido ao público.
E ajudou a demonstrar que existia até um mercado comercial em torno do making of de um único videoclipe.
Um videoclipe.
SETE SINGLES.
Até então, trabalhar três ou quatro singles de um álbum era absolutamente normal.
A Epic continuou olhando para Thriller e perguntando:
tem mais alguma aqui capaz de chegar ao Top 10?
Tinha.
Então lança.
Outra?
Tinha.
Lança.
Durante cerca de quinze meses, sete das nove músicas foram lançadas como singles.
Todas chegaram ao Top 10 americano.
Sete.
De nove.
Depois disso, outras gravadoras entenderam o recado.
Bruce Springsteen teve sete singles de Born in the U.S.A.
Prince teve cinco de Purple Rain.
Def Leppard teve sete de Hysteria.
O álbum deixou de ser necessariamente uma campanha curta com dois ou três tiros.
Um grande disco podia permanecer sendo trabalhado por anos.
Hoje isso parece normal.
Na época, Michael ajudou a escrever o manual.
37 SEMANAS NO TOPO
Thriller entrou na Billboard 200 em número 11.
Dez semanas depois, tirou Business as Usual, do Men at Work, do primeiro lugar.
Depois passou 37 semanas não consecutivas em número 1.
No total:
122 semanas na parada.
E as fábricas precisavam continuar prensando discos.
E mais discos.
E mais discos.
Aquela brincadeira dos caminhões na convenção da Epic começava a parecer menos brincadeira a cada mês.
MAS OS NÚMEROS AINDA NÃO CONTAM A HISTÓRIA
É tentador encerrar aqui.
Milhões vendidos.
Platinas.
Top 10.
Semanas em primeiro lugar.
Recordes.
Só que Thriller importa por outra razão.
Antes dele, havia várias paredes separando coisas que a indústria considerava diferentes.
R&B aqui.
Pop ali.
Rock do outro lado.
Artista negro naquele departamento.
MTV com aquela programação.
Videoclipe como material promocional.
Álbum promovido durante alguns meses.
Lançamento primeiro num país, depois em outro.
Michael Jackson atravessou essas paredes uma atrás da outra.
Às vezes dançando.
Às vezes com Quincy Jones atrás da mesa.
Às vezes com Eddie Van Halen fazendo uma guitarra berrar.
Às vezes com John Landis filmando zumbis.
E às vezes simplesmente colocando uma música tão boa no rádio que o formato precisava decidir se continuaria defendendo sua caixinha...
ou tocaria aquela merda logo.
Tocaram.
MICHAEL NÃO FEZ ISSO SOZINHO
E essa parte merece ficar muito clara.
Thriller tem Michael Jackson no centro.
Só que ao redor dele existe uma quantidade absurda de talento.
Quincy Jones.
Rod Temperton.
Greg Phillinganes.
Bruce Swedien.
Paul McCartney.
Eddie Van Halen.
Steve Lukather.
Steve Porcaro.
John Landis.
Compositores.
Músicos.
Engenheiros.
Diretores.
Executivos que entenderam o tamanho do que tinham nas mãos — alguns antes, outros provavelmente depois que os números começaram a enlouquecer.
Mas havia uma pessoa puxando tudo aquilo para um lugar maior.
Michael.
Ele não queria simplesmente fazer Off the Wall 2.
Queria ultrapassar o que já tinha feito.
E conseguiu de uma maneira tão brutal que, quatro décadas depois, ainda usamos Thriller como unidade de medida.
“VIMOS O TOPO DA MONTANHA”
Les Garland, da MTV, resumiria anos depois:
“Vimos o topo da montanha com Thriller.”
Talvez seja essa a melhor maneira de explicar o álbum.
A indústria mudou.
O consumo mudou.
O vinil perdeu espaço.
O CD veio.
Depois MP3.
Download.
Streaming.
YouTube.
TikTok.
O próprio conceito de televisão musical praticamente desapareceu da forma como existia nos anos 80.
Provavelmente nunca teremos novamente um único álbum dominando rádio, televisão, lojas, dança, moda, videoclipe e cultura popular simultaneamente daquela maneira.
Não porque depois de Michael Jackson ninguém mais tenha feito discos gigantescos.
Fizeram.
Não porque ninguém mais tenha vendido milhões.
Venderam.
É porque o mundo onde Thriller aconteceu permitia que um fenômeno musical ocupasse praticamente a mesma sala para todo mundo ao mesmo tempo.
E durante algum tempo...
Michael Jackson ocupou essa sala inteira.
TRÊS MOMENTOS. UMA HISTÓRIA.
Para a primeira matéria de Michael Jackson na Passport, um vídeo só seria pouco.
Então são três.
Primeiro:
Beat It — HIStory Tour, Munique.
A música criada justamente para atravessar a fronteira entre pop, R&B e rock.
Depois:
Billie Jean — Motown 25.
O momento em que uma apresentação televisionada entrou para a história.
E finalmente:
Thriller — ao vivo em Munique, 1997.
Três músicas.
Três pedaços diferentes do mesmo terremoto.
Porque em 1982 Michael Jackson lançou nove faixas.
E quando a poeira baixou, havia mudado a maneira de lançar discos, trabalhar singles, produzir videoclipes, programar televisão, promover artistas e vender música para o planeta inteiro.
Isso não é apenas ter um álbum clássico.
É outra coisa.
É deixar a indústria diferente daquela que você encontrou.
E para a estreia de Michael Jackson na Passport Radio...
não existia história melhor para começar.