
Olivia Rodrigo abre a “Unraveled Tour” entre flores, chuva, lágrimas e um vestido que literalmente se desfaz
Mr. Nomad
Primeiro vieram as flores.
Muitas flores.
Flores cor-de-rosa.
Flores brancas.
Flores no palco.
Flores suficientes para você começar a suspeitar que, em algum lugar atrás da arena, havia uma equipe cuja única função naquela noite era:
— Caiu uma flor.
— COLOCA OUTRA.
Foi assim que Olivia Rodrigo resolveu começar uma nova fase da carreira.
Em 25 de setembro, na PeoplesBank Arena, em Hartford, Connecticut, ela abriu a The Unraveled Tour diante de uma arena lotada.
E não entrou simplesmente caminhando pelo palco.
Claro que não.
Olivia apareceu saindo de um campo de flores silvestres, enquanto sons de pássaros e grilos preparavam a cena.
Então começou Drop Dead.
Pronto.
A turnê estava aberta.
Algumas músicas depois, ela mesma pareceu precisar confirmar que aquilo estava realmente acontecendo:
“Não acredito que estamos aqui.”
Estavam.
E ainda faltavam chuva, neve, confete, três palcos, 23 músicas e um vestido com prazo de validade bastante curto.
NÃO É SÓ UM SHOW POP
Existe piano.
Existe aquele pop capaz de deixar uma arena inteira emocionalmente comprometida.
Existe Drivers License, o tipo de música que você pode jurar que superou até ela começar.
Mas ao vivo, Olivia Rodrigo também deixa muito claro de onde vem uma parte importante de sua formação musical.
Tem guitarra.
Tem banda de verdade trabalhando atrás dela.
Tem volume.
Tem momentos em que as músicas mais lentas crescem até parecerem baladas de rock.
E quando chega a hora de faixas como All-American Bitch e Expectations, a coisa deixa de parecer simplesmente um grande espetáculo pop e ganha aquele maravilhoso cheiro de:
vamos fazer barulho.
Isso não aconteceu por acidente.
Quem abriu a noite foi o Wolf Alice.
E Olivia fez questão de recomendar a banda ao público, citando You’re a Germ e Bros entre suas favoritas.
Ou seja:
ninguém estava escondendo as guitarras naquela noite.
TRÊS PALCOS PARA UMA ARENA NÃO PARECER TÃO GRANDE
Show de arena tem um problema básico.
Para quem está na frente, o artista está ali.
Para quem está lá atrás...
Bom.
Existe um telão por um motivo.
Olivia tentou quebrar essa distância usando três espaços diferentes.
Havia o palco principal, grande e curvo.
Um palco B circular no meio da pista.
E ainda um terceiro espaço minúsculo, praticamente grande o suficiente para caber ela e mais ninguém.
A estratégia funcionou.
Em vez de passar duas horas existindo a cinquenta metros de parte do público, ela circulava.
Chegava à grade.
Cantava com alguém.
Segurava uma mão.
Improvisava uma pequena dança.
Em determinado momento, aparentemente até parou para uma selfie.
Em outro, sentou na escada do palco B, praticamente na altura dos olhos de quem estava na pista, e cantou Less dali.
É uma diferença pequena no projeto de um espetáculo gigantesco.
Para a pessoa cuja mão ela segurou?
Provavelmente virou a história que vai contar pelos próximos vinte anos.
SIM. “DRIVERS LICENSE” AINDA ACABA COM AS PESSOAS
Cinco anos depois, existe uma pergunta importante:
Drivers License ainda funciona?
Resposta:
infelizmente para a estabilidade emocional de uma arena inteira, funciona perfeitamente.
A música encerrou uma sequência de três ao piano.
Antes dela, Honeybee e Favorite Crime já haviam feito um belo serviço de demolição emocional.
Aí começaram os primeiros acordes de Drivers License.
E acabou.
Milhares de pulseiras luminosas transformavam a arena numa espécie de céu estrelado enquanto o público cantava junto.
Essa talvez seja uma das coisas mais cruéis sobre música.
Você pode ouvir uma canção centenas de vezes.
No carro.
Em casa.
No fone.
No ônibus.
No banho.
Pode achar que ela já não tem mais nenhuma surpresa guardada.
Aí você coloca milhares de pessoas numa sala, apaga as luzes e começa a tocar a mesma música.
E ela vira outra coisa.
Drivers License ainda tem esse poder.
NO MEIO DISSO TUDO, ANIVERSÁRIO DA MÃE
A noite de 25 de setembro já tinha bastante coisa acontecendo.
Era a estreia da turnê.
Arena lotada.
Produção gigantesca.
Primeira noite de uma nova era.
Só que também era aniversário de uma pessoa bastante importante.
Jenny, mãe de Olivia.
Em algum momento, Olivia sentou ao piano e contou ao público que não estaria ali — ou em lugar nenhum — sem o amor e o apoio constante dela.
Aí convocou a arena inteira para cantar Happy Birthday.
Sem grande produção.
Sem truque.
Sem efeito especial.
Filha no piano.
Mãe em algum lugar da plateia.
Milhares de desconhecidos cantando parabéns.
E Olivia, já emocional, praticamente admitindo que estava a dois segundos de chorar porque amava demais aquela mulher.
Num espetáculo planejado até o último foco de luz, talvez justamente por isso tenha funcionado tão bem.
Pareceu vida acontecendo no meio do show.
E AÍ ELA RESOLVEU BRINCAR DE MAESTRINA
Expectations poderia simplesmente entrar no setlist, funcionar muito bem e ir embora.
Olivia resolveu se divertir um pouco mais.
Durante a música, transformou a arena num coral improvisado.
Homens de um lado vocal.
Mulheres do outro.
Primeiro pediu aos homens que fizessem uma parte do refrão numa voz deliberadamente grave.
Depois as mulheres responderam mais agudo, reproduzindo as camadas vocais da gravação.
É uma bobagem?
Talvez.
Funciona?
É claro que funciona.
Porque show também é isso.
Nem tudo precisa ser chuva dramática, coração partido e uma iluminação desenhada para destruir emocionalmente quem pagou ingresso.
Às vezes você só precisa colocar milhares de pessoas para fazer vozes diferentes e ver o que acontece.
E Expectations recebeu uma responsabilidade enorme:
fechar o show.
Sem bis.
Terminou.
Boa noite.
Vão para casa.
CALMA. ANTES DISSO TEVE “THE CURE”
Aqui mora provavelmente a imagem que vai perseguir essa turnê inteira.
Olivia foi para o palco B.
Começou The Cure.
E então começou a chover.
Não metaforicamente.
Chuva mesmo.
Concentrada nela.
A música já carregava seu próprio peso emocional, mas a encenação foi construída para fazer Olivia parecer literalmente se desfazendo diante do público.
E foi exatamente isso que aconteceu.
O vestido começou a se desintegrar com a água.
Pedaço por pedaço.
Por baixo, apareceu um body vermelho.
Olivia arrancou o que ainda restava do tecido e chegou à ponte da música completamente encharcada.
De repente, o nome Unraveled — “desfeito”, “desenrolado”, “desmontado” — deixou de ser apenas o nome bonito colocado no cartaz da turnê.
Ela estava literalmente se desfazendo no palco.
É um truque visual?
Claro.
Tudo aquilo foi planejado.
E daí?
Quando conceito, música, cenário e interpretação chegam juntos ao mesmo lugar, o truque deixa de ser o assunto.
O momento vira o assunto.
E naquele primeiro show, The Cure virou o momento.
E AINDA TINHA NEVE. E CONFETE.
Porque aparentemente chuva e flores não eram suficientes.
Durante as duas horas de espetáculo também caiu neve.
Caiu confete.
O telão acompanhou Olivia de perto, transformando expressões pequenas em imagens visíveis até no fundo da arena.
E ela sabe onde a câmera está.
Isso importa.
Num show desse tamanho, quem está na arquibancada superior não assiste exatamente à mesma apresentação de quem está encostado na grade.
Então trabalhar para a câmera não é vaidade.
É parte do espetáculo.
Olivia consegue transformar um olhar, uma pausa ou uma expressão em algo que chega até a última fileira.
E isso ajuda a explicar por que um espetáculo enorme ainda consegue ter momentos que parecem pequenos.
NEM TUDO ENTROU
Três álbuns.
Duas horas.
23 músicas.
A matemática eventualmente cobra alguma vítima.
Com GUTS, SOUR e o material mais recente à disposição, algumas faixas ficaram de fora.
Uma ausência particularmente sentida foi What’s Wrong With Me.
Existe uma explicação razoável:
Robert Smith não está escondido embaixo do palco acompanhando a turnê.
Uma pena.
Seria uma excelente surpresa.
Mas a seleção conseguiu atravessar as diferentes Olivia Rodrigos que existem dentro do mesmo repertório.
A compositora do piano.
A garota do coração destruído.
A cantora pop.
Aquela que claramente gosta de uma guitarra um pouco mais alta.
E a artista que agora precisa preencher arenas sem perder a sensação de que está contando alguma coisa diretamente para alguém.
E OLIVIA NÃO TERMINOU DE APRENDER ESSE SHOW
Essa talvez seja a parte mais interessante.
Hartford foi a primeira noite.
O espetáculo ainda vai mudar.
Algumas transições vão ficar melhores.
Pequenos momentos espontâneos vão aparecer.
Outros provavelmente desaparecerão.
Alguma música pode entrar.
Outra pode sair.
Olivia vai descobrir onde consegue brincar mais com o público e onde precisa simplesmente deixar a canção trabalhar.
Uma turnê também aprende a ser uma turnê.
E a Unraveled Tour começou já com uma quantidade considerável de coisas funcionando.
Flores.
Três palcos.
Uma banda forte.
Hits.
Intimidade.
Chuva.
Neve.
Confete.
Uma arena chorando.
Uma arena rindo.
Uma mãe ouvindo milhares de pessoas cantarem parabéns.
E um vestido que começou a noite inteiro e definitivamente não recebeu essa mesma oportunidade de chegar inteiro ao final.
AGORA APERTA O PLAY
Depois de tudo isso, escolher um momento limpinho e comportado seria quase desperdício.
Então vamos para Expectations.
Aquela que colocou a arena para cantar.
Aquela que deixou Olivia brincar de regente.
E aquela escolhida para mandar todo mundo para casa.
Olivia Rodrigo — Expectations
The Unraveled Tour — Hartford, Connecticut
Olivia Rodrigo entrou nesta nova fase cercada de flores.
Duas horas depois, já tinha atravessado chuva, neve, confete, lágrimas e uma arena inteira cantando com ela.
Para uma turnê chamada Unraveled...
começar se desfazendo desse jeito parece bastante apropriado.