Ir para o conteúdo
1 9 9 8 · 2 0 2 6
Alice Cooper

Alice Cooper finalmente chega à Passport Radio. Vincent Damon Furnier também — embora esse senhor seja bem menos assustador

Aos 78 anos, Alice lança novas memórias, trabalha em três discos ao mesmo tempo e continua provando que aposentadoria aparentemente nunca entrou no roteiro. E já que ele finalmente entrou nesta casa, vamos apresentar direito o homem por trás da maquiagem.

Mr. Nomad

Alice Cooper

CHEGOU.

Finalmente.

Pode apagar algumas luzes.

Liga o amplificador.

Arruma uma guilhotina num canto — cenográfica, por favor, nosso jurídico já tem problemas suficientes — e avisa que temos visita. 😂

Porque Alice Cooper acaba de ganhar sua primeira matéria na Passport Radio.

Só que existe um pequeno problema.

Alice Cooper não existe.

Calma.

O ALICE existe.

Só não nasceu Alice.

O cidadão que nasceu foi:

Vincent Damon Furnier.

— Quem?

Exatamente.

😂

Então antes de falar do livro novo, dos TRÊS discos que o homem está preparando ao mesmo tempo e de uma carreira que aparentemente se recusa a entender o significado da palavra “parar”, precisamos fazer as apresentações.

De um lado:

Vincent.

Do outro:

Alice.

E depois de décadas convivendo no mesmo corpo, os dois resolveram discutir dentro de um livro.

Isso promete.


PRAZER, VINCENT. AGORA CADÊ O ALICE?

A história começa muito antes da maquiagem nos olhos, das cobras, das guilhotinas, do sangue cenográfico e de pais preocupados com o que os filhos estavam ouvindo.

A banda original nasceu em 1964.

Antes de Alice Cooper ser Alice Cooper, passaram pelo nome Earwigs.

E em algum momento Vincent Furnier percebeu uma coisa bastante poderosa:

rock não precisava ser apenas um sujeito parado diante de um microfone cantando.

Podia ser personagem.

Podia ser teatro.

Podia incomodar.

Podia provocar.

Podia fazer a plateia se perguntar:

“Que cacete eu acabei de assistir?”

E nasceu Alice Cooper.

Só que durante muito tempo a fronteira entre Vincent e Alice ficou bastante borrada.

Hoje ele consegue explicar com clareza:

Alice é um personagem.

Vincent é o sujeito que vai para casa.

Essa separação, aliás, é uma das partes centrais de sua história.


Alice Cooper

E AGORA OS DOIS ESTÃO DISCUTINDO NUM LIVRO

O novo livro se chama:

Devil on My Shoulder

São 445 páginas de Alice Cooper tentando finalmente colocar alguma ordem na própria história.

Ou...

pelo menos a quantidade de ordem possível quando o próprio autor admite que passou décadas ajudando a tornar sua biografia mais divertida do que necessariamente precisa.

😂

Cooper reconhece uma coisa maravilhosa:

durante anos, ele foi um narrador deliberadamente pouco confiável da própria vida.

Porque existia um personagem para alimentar.

Uma aura para manter.

Um mistério para não estragar.

E, como ele próprio resume, fatos nem sempre deveriam atrapalhar uma boa história.

Aí fica difícil para o historiador.


“90% É VERDADE”

Agora Alice garante que resolveu colaborar um pouco mais com a humanidade.

Segundo ele, aproximadamente 90% das histórias do novo livro são verdadeiras.

Noventa.

Não 100.

Noventa.

Os outros 10% aparentemente continuam sob responsabilidade do departamento:

“A história ficou melhor assim.”

😂

E quer saber?

É uma porcentagem surpreendentemente alta para Alice Cooper.


PORQUE OS OUTROS LIVROS TAMBÉM EXISTEM

Devil on My Shoulder não é sua primeira tentativa de contar a própria história.

Em 1976 saiu:

Me, Alice: The Autobiography of Alice Cooper.

Hoje o próprio Cooper praticamente olha para aquilo e diz:

não use isso como documento em tribunal.

Ele descreve o livro como um “delírio de bêbado”.

Depois veio Alice Cooper, Golf Monster, em 2007, misturando autobiografia, sobriedade e aquela paixão aparentemente improvável que Alice desenvolveu:

golfe.

Sim.

O homem que subia ao palco cercado por terror, cobras e guilhotinas também gosta de acertar uma bolinha branca cuidadosamente num gramado.

Ser humano é uma coisa maravilhosa.


DESTA VEZ ELE SENTOU E FEZ DIREITO

Para o novo livro, Cooper trabalhou com Daniel Richler, que também colaborou com Geddy Lee, do Rush, em My Effin’ Life.

E não foi:

“Daniel, toma aqui umas histórias e depois me manda o PDF.”

Alice conta que chegou a passar cinco horas por dia com Richler tentando reconstruir acontecimentos.

E aí aparece um problema que qualquer pessoa com algumas décadas de vida conhece perfeitamente:

memória não é gravação de segurança.

Você lembra do acontecimento.

Lembra de alguém.

Lembra do lugar.

Talvez lembre do que sentiu.

Agora reproduzir exatamente uma conversa de 50 anos atrás?

Boa sorte.

Cooper assume isso.

O livro conta aquilo que ele consegue lembrar — e aquilo que acredita ter acontecido.


E DANIEL TEVE UMA IDEIA MARAVILHOSA

Colocar os dois para conversar.

Vincent Furnier e Alice Cooper.

O homem e o personagem.

Ao longo do livro, Alice questiona Vincent sobre determinadas histórias.

Às vezes Vincent insiste.

Às vezes Alice duvida.

Às vezes um cede.

É praticamente uma audiência de verificação de fatos acontecendo dentro da própria cabeça.

E faz sentido porque Cooper aprendeu, principalmente depois de ficar sóbrio, a estabelecer uma separação muito clara entre os dois.


O DIABO NO OMBRO

Daí vem o título.

Para Cooper, todo mundo possui aquele pequeno sujeito imaginário no ombro dizendo:

“Vai.”

“Faz.”

“Vai dar certo.”

“Confia.”

Aí você faz.

Dá completamente errado.

E cinco minutos depois está pensando:

“Por que eu fui ouvir essa porcaria?”

Esse é o Devil on My Shoulder.

Não necessariamente uma entidade sobrenatural.

É aquela voz que convence alguém a escolher justamente a ideia que parecia maravilhosa durante quinze segundos.

Todos temos uma.

Alguns apenas deram nome e capa dura para ela.


E O LIVRO VAI ATÉ AS PARTES QUE NÃO TÊM GRAÇA

Porque a história de Alice Cooper também chegou muito perto de terminar cedo demais.

Dependência química.

Alcoolismo.

Crack.

Uma situação que quase destruiu sua carreira e sua vida no final dos anos 1970.

Depois veio a sobriedade.

E também a retomada da fé cristã.

E aqui aparece novamente a separação entre Vincent e Alice.

Cooper não vê contradição entre sua fé e interpretar um personagem sombrio no palco.

Para ele, é atuação.

Quando a cortina fecha:

Alice desaparece.

Vincent volta.

Essa divisão também permitiu que ele continuasse interpretando Alice com intensidade sem precisar viver como Alice Cooper 24 horas por dia.

Convenhamos:

ninguém aguenta.


E ELE NÃO ESCONDE A FÉ

Cooper fala abertamente sobre sua relação com o cristianismo e sobre como ela voltou a ocupar espaço em sua vida depois que ficou sóbrio.

Também fala da Solid Rock, fundação criada no Arizona para trabalhar com adolescentes.

Existe uma ironia histórica deliciosa nisso.

O mesmo sujeito que já teve discos queimados por grupos religiosos acabou criando uma organização voltada a ajudar jovens e falando publicamente sobre sua própria fé.

A vida adora escrever roteiros que nenhum roteirista teria coragem de entregar.


E A GALINHA?

Ah.

A GALINHA.

Porque falar de Alice Cooper sem chegar naquela história seria fraude.

Toronto Rock and Roll Revival.

1969.

Uma galinha aparece no palco.

Alice joga a pobre criatura na direção da plateia acreditando, segundo a velha história, que ela voaria.

Não voou.

Décadas depois, ainda existe uma pergunta fundamental:

DE QUEM ERA A GALINHA?

Alice diz que continua sem saber.

Pronto.

Temos um livro de 445 páginas.

Décadas de investigação.

E o mistério da galinha continua aberto.

Talvez seja melhor assim.


E O NOME “ALICE COOPER”? CALMA LÁ COM A BRUXA

Outra história ganhou durante anos uma explicação muito mais sobrenatural.

Reencarnação.

Bruxa.

Tabuleiro Ouija.

Destino místico.

A verdade?

Era menos interessante.

E Alice praticamente admite que percebeu isso cedo.

Então adotaram uma estratégia de comunicação absolutamente genial:

não precisava confirmar a história fantástica.

Bastava...

não negar.

😂

Marketing antes de alguém transformar tudo em apresentação de PowerPoint.


AGORA SEGURA: ELE ESTÁ FAZENDO TRÊS DISCOS

Sim.

TRÊS.

Alice Cooper tem 78 anos.

E aparentemente olhou para a agenda e decidiu que ainda havia espaço sobrando.

Atualmente existem três projetos de álbum fervilhando ao mesmo tempo.

Um disco solo de Alice Cooper.

Normal.

Um disco do Hollywood Vampires.

Aí já começa a agenda ficar apertada.

E OUTRO COM A BANDA ORIGINAL ALICE COOPER.

Pronto.

Agora explica onde esse homem está guardando horas extras.


A BANDA ORIGINAL VOLTOU A RESPIRAR

A formação clássica tinha:

Alice Cooper.
Dennis Dunaway.
Michael Bruce.
Neal Smith.
Glen Buxton.

Buxton morreu em 1997.

Os demais voltaram a se reunir na cerimônia de entrada no Rock & Roll Hall of Fame, em 2011.

E no ano passado lançaram The Revenge of Alice Cooper — primeiro álbum do grupo em 52 anos.

Cinquenta e dois.

Tem banda que não consegue ficar reunida durante 52 semanas.

Esses sujeitos esperaram 52 anos e resolveram fazer disco.


“CONTINUEM COMPONDO”

E Alice aparentemente gostou da experiência.

A ordem aos antigos companheiros foi simples:

continuem escrevendo músicas.

Depois eles se encontram.

Escolhem as melhores.

Entram no estúdio.

E fazem outro.

Sem reunião de estratégia de marca.

Sem palestra sobre reposicionamento.

Sem alguém dizendo que precisam “dialogar com a geração Z”.

Façam músicas. Depois a gente vê.

Maravilhoso.


E BOB EZRIN CONTINUA NO MEIO DESSA CONFUSÃO

O produtor Bob Ezrin, peça fundamental da história de Alice Cooper, também continua presente.

Alice resume a situação praticamente assim:

ele tem os três projetos fervilhando na cabeça.

Quando Bob ligar dizendo:

“Agora vamos trabalhar neste aqui.”

eles trabalham.

É isso.

Aos 78 anos, o planejamento estratégico de Alice Cooper parece continuar bastante eficiente:

alguém liga e eles fazem disco.


E ELE AINDA ESTÁ NA ESTRADA

Como se três discos e um livro de 445 páginas fossem pouco, existe a agenda de shows.

Depois dos eventos de lançamento do livro em Nova York e da participação na New York Comic Con, Cooper segue para compromissos no Reino Unido.

Depois volta aos Estados Unidos para a etapa final da turnê Alice’s Attic.

E em novembro reencontra o ilusionista Criss Angel em Las Vegas para mais apresentações de:

Welcome to Our Nightmare.

Rock.

Teatro.

Ilusionismo.

Fogo saindo do chão.

E, segundo Cooper, se você ficar no lugar errado...

você pode acabar assado.

Finalmente uma produção em que a marcação de palco não é mera recomendação.

😂


AGORA QUE FIZEMOS AS APRESENTAÇÕES...

Senhoras e senhores da Passport Radio:

Vincent Damon Furnier.

Cristão.

Pai.

Golfista.

Sóbrio há décadas.

Filantropo.

Um sujeito que aparentemente consegue conversar civilizadamente.

E:

ALICE COOPER.

Maquiagem.

Terror.

Teatro.

Cobras.

Guilhotinas.

Escolas acabando.

Pesadelos começando.

E um catálogo que ajudou a transformar espetáculo de rock em algo muito maior do que uma banda tocando músicas diante de uma plateia.

Os dois moram no mesmo endereço.

Só não trabalham exatamente no mesmo turno.


E JÁ QUE ALICE FINALMENTE ENTROU, NÃO VAMOS DEIXAR O HOMEM SAIR SEM TOCAR

Primeiro:

🎬 ALICE COOPER — “NO MORE MR. NICE GUY” — HELLFEST 2022

E depois:

🎬 ALICE COOPER — “SCHOOL'S OUT” — RESURRECTION FEST 2024

Duas músicas.

Ao vivo.

Porque apresentação de Alice Cooper sem palco é praticamente mostrar fotografia de montanha-russa.

Você entendeu o objeto, mas perdeu metade da graça.


E AGORA UM RECADO NOSSO

Alice Cooper acabou de chegar à Passport Radio.

E amanhã entra outro.

Depois outro.

Rock.

Metal.

Pop.

Country.

MPB.

K-pop.

Artista gigantesco.

Banda independente que ainda toca para 80 pessoas.

História de 50 anos.

História que começou ontem.

Essa é justamente a ideia.

A Passport Radio não nasceu para ficar sentada repetindo eternamente meia dúzia de nomes porque algum manual decidiu onde termina um gênero e começa o outro.

A casa precisa continuar viva.

E você pode ajudar a fazer isso acontecer.

🎧 OUÇA

Temos várias rádios e programações diferentes dentro da Passport.

Alice Cooper é uma porta.

Existem centenas de outras.

Descubra artistas, reencontre músicas e escolha aquilo que quer ouvir.

📣 PEÇA

Quer ouvir alguma coisa?

Participe.

Mande seu pedido.

Ajude a programação a refletir quem realmente está do outro lado ouvindo.

✍️ ESCREVA

Tem uma história musical que merece espaço?

Uma banda?

Um artista independente?

Uma lembrança?

Um show?

Uma descoberta?

Uma entrevista?

Material de arquivo?

Mande para a Passport.

Você não precisa trabalhar numa redação para ter uma história que valha a pena contar.

🤝 PARTICIPE

Também dá para ajudar divulgando.

Compartilhando.

Indicando.

Enviando material.

Corrigindo algo.

Apresentando uma banda.

Trazendo uma pauta.

Abrindo uma porta que nós ainda não encontramos.

❤️ APOIE

E quem puder contribuir financeiramente ajuda a manter toda essa máquina funcionando e crescendo.

Quem não puder?

Continua fazendo parte exatamente do mesmo jeito.

Ouça.

Leia.

Compartilhe.

Participe.

Ajude a trazer gente nova para dentro.

Porque construir uma Passport Radio grande não significa simplesmente encher um servidor de páginas.

Significa fazer a casa circular.

Artista entrando.

Leitor participando.

Ouvinte pedindo música.

Gente escrevendo.

Banda independente aparecendo.

Arquivo sendo descoberto.

Vídeo sendo encontrado.

Rádio tocando.

História sendo contada.

E outra história chegando logo atrás.

É assim que uma publicação deixa de ser uma vitrine engessada e vira uma máquina viva de música.

Sem cerca em volta.

Sem gênero musical funcionando como porteiro.

Sem decidir que “isso aqui entra” e “aquilo ali não entra” só porque sempre foi feito daquele jeito.

Hoje entrou Alice Cooper.

Ou melhor...

entraram dois.

Vincent Damon Furnier pode ficar ali tomando um café.

Alice...

Alice pode ir direto para o palco. 🎩🔥