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Noel Gallagher

Noel Gallagher acorda, toma café e aparentemente pergunta: “Quem eu vou detestar hoje?”

Sam Smith, Maroon 5, Kaiser Chiefs, Harry Styles, Radiohead, Blur, Beach Boys, Phil Collins, heavy metal e, naturalmente, Liam Gallagher. A lista de desafetos de Noel é tão democrática que praticamente ninguém precisa se sentir excluído.

Mr. Nomad

Noel Gallagher

BOM DIA, NOEL. ☀️

Dormiu bem?

Café?

Pão?

Fruta?

— Não.

Então o que você quer?

— Detestar alguém.

Ah.

Começou mais um dia normal na residência Gallagher. 😂

Porque existem artistas que passam décadas construindo cuidadosamente uma imagem pública.

Pensam antes de falar.

Consultam assessoria.

Respiram.

Contam até dez.

Perguntam:

“Será que isso pode ser mal interpretado?”

Noel Gallagher aparentemente desenvolveu outro método:

fala primeiro e deixa o resto da humanidade resolver depois.

E talvez seja justamente por isso que juntar algumas das pessoas que ele já detonou ao longo dos anos seja tão divertido.

Porque não existe exatamente um padrão.

Pop?

Detona.

Rock?

Detona.

Metal?

Detona.

Uma das bandas mais importantes da história da música?

Detona também.

O próprio irmão?

Aí, meu amigo...

puxa uma cadeira.


1 — SAM SMITH

Vamos começar tranquilamente.

Mentira.

Noel estava falando sobre música pop e sobre aquilo que enxergava como uma deterioração das paradas quando resolveu usar Sam Smith como exemplo.

Para Gallagher, pop funciona quando existem grandes estrelas pop.

O problema, segundo ele, é que boa parte delas seria composta por...

idiotas.

E Sam entrou na conta.

Ao ser questionado, Noel ainda resumiu sua sofisticadíssima análise aproximadamente em:

“Basta olhar.”

😂

Décadas de crítica musical.

Teoria.

Composição.

Produção.

Estética.

Noel:

“OLHA PRA ELE.”

Próximo.


2 — MAROON 5

Essa história é maravilhosa porque contém uma segunda parte que transforma tudo em comédia britânica.

Noel estava numa festa da indústria musical em Los Angeles.

Conheceu o baixista do Maroon 5.

O sujeito se apresentou.

Algo perfeitamente normal:

— Sou o baixista do Maroon 5.

Noel aparentemente recebeu essa informação como se alguém tivesse acabado de insultar sua família.

A reação foi basicamente:

“Como você imaginou, ouvindo o que eu faço, que eu gostaria do Maroon 5? Sai da minha frente.”

Delicado.

Elegante.

Diplomático.

Só existe um pequeno problema.

Pouco depois...

Noel encontrou o mesmo sujeito novamente.

Em outra festa.

E descobriu que estava...

NA CASA DO BAIXISTA DO MAROON 5.

😂😂😂

A vida às vezes escreve melhor que nós.

Imagina você mandar o sujeito sair da sua frente e, meia hora depois, descobrir:

“Peraí... essa casa é dele?”

Noel Gallagher, senhoras e senhores.


3 — KAISER CHIEFS

Se alguém imaginou que bandas britânicas escapariam porque “são do mesmo time”...

Não conhece Noel.

O Kaiser Chiefs virou um dos alvos durante o auge do rock britânico dos anos 2000.

A crítica dele não era apenas:

“não gosto.”

Noel achava a banda pouco original.

Na visão dele, estavam seguindo uma tendência em vez de empurrar o rock para algum lugar novo.

Até aí...

crítica musical.

Só que estamos falando de Noel Gallagher.

Então obviamente ele não conseguiu parar aí.

Vieram os insultos.

Vieram as namoradas dos integrantes para dentro da história.

E a crítica musical foi embora pela janela.

😂

Noel possui essa capacidade extraordinária de começar discutindo estética e terminar brigando com pessoas que nem estavam na entrevista.


4 — HARRY STYLES

Harry Styles deixou o One Direction.

Começou carreira solo.

Buscou referências no rock clássico.

“Sign of the Times” apareceu.

Muita gente gostou.

Noel?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Gallagher atacou justamente a ideia de compositores mais velhos produzindo músicas para artistas jovens.

E afirmou que seu gato poderia ter escrito “Sign of the Times” em aproximadamente dez minutos.

O gato de Noel nunca respondeu oficialmente.

Uma pena.

Gostaríamos muito de ouvir a demo.

🐈🎹


5 — RADIOHEAD

Agora entramos numa zona particularmente divertida porque estamos falando de uma banda que crítica musical adora.

Radiohead.

OK Computer.

Kid A.

Thom Yorke.

Experimentação.

Prestígio.

Noel assistiu ao documentário Meeting People Is Easy e parece ter saído da experiência com uma única conclusão:

PAREM DE RECLAMAR.

😂

O que incomodava Gallagher era assistir aos integrantes falando sobre cansaço, estrada, exposição e a vida dentro de uma banda gigantesca.

A leitura dele era simples:

vocês estão numa banda famosa, andando de limusine e reclamando que estão numa banda famosa?

Então aposentem-se.

Problema resolvido.

Departamento Gallagher de Recursos Humanos funcionando normalmente.


E A MELANCOLIA TAMBÉM NÃO AJUDAVA

Noel nunca teve muita paciência com determinada estética depressiva.

Nem quando vinha de artistas que ele respeitava.

Isso ajuda a entender inclusive “Live Forever”.

A música surgiu, em parte, como uma espécie de resposta àquela visão niilista que Noel enxergava em parte do rock daquele período — incluindo Kurt Cobain e Nirvana.

Enquanto alguém dizia:

“Não quero viver.”

Noel estava mais na linha:

“Pois eu quero viver para sempre, cacete.”

E nasceu uma das maiores músicas do Oasis.


6 — BLUR

AHAHAHAHAHAHA.

Agora chegamos à guerra civil.

Oasis x Blur.

Britpop dos anos 90.

Paradas.

Capas de revista.

Fãs escolhendo lado como se a soberania britânica dependesse disso.

E Noel não tinha exatamente uma relação...

serena

com Damon Albarn e companhia.

Ele detonou integrantes individualmente.

Chamou Damon de idiota.

Atacou Graham Coxon.

Falou do baixista.

Falou da banda.

Falou provavelmente até o que ninguém perguntou.

E houve um episódio em que ultrapassou qualquer limite aceitável ao desejar que Damon Albarn e Graham Coxon contraíssem AIDS — comentário pelo qual posteriormente reconheceu ter passado do ponto.

Porque uma coisa é rivalidade.

Outra é isso.


SÓ QUE O TEMPO FEZ UMA COISA ENGRAÇADA

Anos depois...

Noel Gallagher colaborou com Damon Albarn em:

“We Got the Power”, do Gorillaz.

E ainda acabaria tocando “Beetlebum”, do Blur, ao vivo.

😂

Décadas de guerra.

E depois:

— Bora tocar?

— Bora.

A maturidade é uma coisa linda.

Ou todo mundo simplesmente ficou cansado demais para continuar brigando.

Também é possível.


7 — THE BEACH BOYS

Agora alguém precisa explicar para Noel que existe uma coisa chamada limite histórico.

Ele não ouviu.

Porque Gallagher também resolveu implicar com:

THE BEACH BOYS.

Mais especificamente com a reverência em torno de Pet Sounds.

Um dos discos mais celebrados da história da música.

Influência gigantesca.

Brian Wilson.

Paul McCartney falando sobre o álbum.

Críticos discutindo a obra há décadas.

Noel:

superestimados.

😂

E ainda reduziu parte daquela sonoridade a algo próximo de:

“música de quarteto de barbearia.”

Pronto.

Agora você pode fechar quinze livros sobre história da música.

Noel resolveu.


8 — PHIL COLLINS

Coitado do Phil.

Sério.

Porque aqui parece existir algo quase pessoal.

Durante os primeiros anos do Oasis, Noel enxergava artistas como Phil Collins e Sting como símbolos de um pop acomodado que ele queria expulsar das paradas.

Para Gallagher, era uma espécie de:

música fast-food.

Música de McDonald's.

Ele chegou a dizer que queria a cabeça de Phil Collins na geladeira antes do fim da década.

FIGURATIVAMENTE, NOEL.

Vamos colocar isso em letras grandes porque nunca sabemos. 😂

Em outra ocasião, chamou Collins de:

“o anticristo.”

Phil aparentemente concluiu que a melhor estratégia era simplesmente manter distância dos Gallagher.

Decisão perfeitamente compreensível.


9 — HEAVY METAL

Chegamos ao momento em que Noel decidiu que atacar artistas individualmente dava muito trabalho.

Então simplificou:

ATACOU UM GÊNERO INTEIRO.

😂😂😂

Heavy metal.

Não importa qual banda.

Gallagher nunca demonstrou grande identificação com a estética e o niilismo que associa a determinadas vertentes do metal.

Isso não significa que ele despreze tudo que tenha guitarra pesada.

Ele admira Led Zeppelin, por exemplo.

Só que heavy metal enquanto universo?

Não é a praia dele.

E aí aparece uma das ironias deliciosas dessa história:

Lars Ulrich, baterista do Metallica, já falou publicamente de sua admiração pelo Oasis.

Ou seja:

Metallica:

❤️ Oasis.

Noel:

“Não gosto dessa porcaria.”

Relacionamento saudável.

😂


10 — LIAM GALLAGHER

Evidentemente.

EVIDENTEMENTE.

Não existia nenhuma possibilidade de terminar essa lista sem o homem que transformou irritar Noel Gallagher numa atividade profissional de décadas.

Seu irmão.

Liam Gallagher.

A relação dos dois provavelmente merece arquivo próprio.

Aliás...

merece servidor próprio.


DOIS IRMÃOS. UMA BANDA. ZERO CAPACIDADE DE DEIXAR QUIETO.

Oasis não seria Oasis sem Liam.

Oasis não seria Oasis sem Noel.

E talvez Oasis não fosse Oasis se os dois fossem pessoas perfeitamente equilibradas capazes de resolver conflitos dizendo:

“Entendo seu ponto de vista.”

Não.

Eles brigavam.

Em entrevistas.

Nos bastidores.

No palco.

Fora dele.

Publicamente.

Privadamente.

E algumas discussões viraram praticamente material fonográfico.

“Wibbling Rivalry” é literalmente uma gravação de uma discussão entre os irmãos que acabou lançada comercialmente.

E entrou nas paradas britânicas.

Pensa nisso.

Os Gallagher conseguiram transformar:

BRIGA DE IRMÃO

em produto fonográfico.

😂😂😂

Isso é capitalismo em nível avançado.


E ENTÃO VEIO UMA DAS MELHORES DESCRIÇÕES DA HISTÓRIA

Noel certa vez descreveu Liam como:

“um homem com um garfo em um mundo de sopa.”

Acabou.

Fecha a redação.

Não vamos superar isso hoje.

😂😂😂😂😂

Você consegue entender a frase sem precisar de nenhuma explicação.

É inútil.

É frustrante.

É absurdo.

E inexplicavelmente perfeito.


SÓ QUE TEM UM PEQUENO PROBLEMA NESSA LISTA

Noel fala.

Noel detona.

Noel implica.

Noel provoca.

Noel declara guerra.

Noel acorda aparentemente escolhendo adversário no café da manhã.

Só que o tempo passa.

E algumas dessas histórias mudam.

Blur deixou de ser aquela guerra dos anos 90.

Damon e Noel colaboraram.

E o caso mais gigantesco:

LIAM E NOEL VOLTARAM A DIVIDIR O PALCO EM 2025.

Depois de anos.

Depois de entrevistas.

Depois de insultos.

Depois de todo mundo achar que aquilo jamais aconteceria.

Aconteceu.

E milhões de fãs acompanharam cada notícia da reunião provavelmente pensando:

“PELO AMOR DE DEUS, NÃO DEIXEM ESSES DOIS SOZINHOS NUM CAMARIM.”

😂


E A TURNÊ NÃO IMPLODIU

Talvez essa tenha sido uma das maiores surpresas.

Porque muita gente não estava perguntando:

“Como será o repertório?”

Estava perguntando:

“QUAL SHOW SERÁ O ÚLTIMO ANTES DE ELES BRIGAREM?”

E felizmente a catástrofe esperada não aconteceu.

Os irmãos conseguiram voltar ao palco juntos.

Oasis voltou a existir diante do público.

E o planeta sobreviveu.


A VERDADE É QUE NOEL GALLAGHER É UMA ESPÉCIE DE PATRIMÔNIO MUNDIAL DA IMPLICÂNCIA

Você não precisa concordar com ele.

Aliás...

é estatisticamente difícil concordar com tudo.

😂

Mas existe algo quase extinto na maneira como Noel fala.

Não parece haver um comitê sentado atrás dele dizendo:

“Talvez possamos reformular isso.”

Ele gosta?

Fala.

Não gosta?

FALA MAIS AINDA.

Às vezes é engraçado.

Às vezes é injusto.

Às vezes ele tem argumento.

Às vezes parece simplesmente ter acordado de mau humor.

Às vezes cruza a linha e depois precisa reconhecer que cruzou.

Só que raramente é entediante.


E TALVEZ ESSA SEJA A GRANDE DIFERENÇA

A indústria musical atual é cheia de entrevistas perfeitamente administradas.

— Como foi trabalhar com seu novo produtor?

“Foi uma jornada incrível.”

— O que você acha dos outros artistas?

“Admiro todos.”

— Como foi o álbum?

“Muito orgânico.”

— Qual sua maior influência?

“Tudo.”

Pronto.

Você terminou a entrevista sabendo exatamente nada.

Aí chega Noel Gallagher:

— Noel, o que você acha de...

“UMA MERDA.”

OPA.

Agora temos matéria. 😂


E DESTA VEZ NÃO TEM VÍDEO

Isso mesmo.

Nenhum.

Zero.

A criatura já produziu entretenimento suficiente apenas abrindo a boca.

A única imagem desta matéria é a foto fornecida de Noel Gallagher.

Olha para aquela cara.

Sério.

Aquilo não é uma fotografia promocional.

Aquilo é a expressão de um homem pensando:

“QUEM ESTÁ FELIZ DEMAIS HOJE E PRECISA OUVIR MINHA OPINIÃO?”

😂😂😂

Provavelmente alguém.

Sempre existe alguém.


E COMO SEMPRE: A PASSPORT NÃO TERMINA AQUI

Terminou a lista?

Vai ouvir música.

Tem várias rádios dentro da Passport Radio.

Inclusive música de gente que Noel adora.

Música de gente que Noel detesta.

E provavelmente música de gente sobre quem Noel ainda não teve oportunidade de reclamar.

Dê tempo ao homem.

😂


QUER PEDIR UMA MÚSICA?

PARTICIPE.

Quer ouvir Oasis?

Peça.

Quer ouvir Blur só para irritar Noel?

Também pode. 😂

Quer mandar uma pauta?

Uma história?

Uma descoberta?

Uma banda independente?

Uma matéria?

Uma correção?

Material de arquivo?

MANDA.

A Passport não precisa ser uma publicação em que o leitor fica do lado de fora olhando.

Entre e mexa na casa.


E QUEM QUISER AJUDAR A MANTER ESSA MÁQUINA VIVA...

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Continua dentro.

Leia.

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Divulgue artistas.

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Porque a ideia continua sendo construir uma casa de música que não fique engessada, repetindo eternamente os mesmos formatos, os mesmos nomes e as mesmas histórias.


Noel Gallagher já brigou com pop.

Com rock.

Com metal.

Com bandas históricas.

Com contemporâneos.

Com estrelas novas.

Com Phil Collins.

Com o próprio irmão.

E provavelmente enquanto terminávamos esta matéria...

ele acrescentou mais dois nomes à lista.

Então amanhã verificamos novamente.

Por enquanto:

boa tarde, Noel.

Tenta não arrumar confusão até o jantar.

...

Ah, esquece.

É NOEL GALLAGHER. 😂🔥