
Racionais MC’s entram na Passport Radio sem pedir licença — e trazem de volta a gravação que deveria ter virado “1000 Trutas, 1000 Tretas”
Vinte anos depois do lançamento de um dos registros fundamentais do rap brasileiro, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay abrem o arquivo: 42 minutos da primeira gravação, perdida após um problema técnico, chegam ao Racionais TV. E se alguém achava que a Passport já tinha enlouquecido misturando Ana Castela, Dua Lipa, BABYMETAL, Judas Priest, Shakira e Arch Enemy, temos uma notícia: ainda estamos começando
Mr. Nomad
NÃO BATE NA PORTA.
Pode entrar.
Aliás...
RACIONAIS MC’S NÃO PRECISAM PEDIR LICENÇA PARA ENTRAR EM LUGAR NENHUM.
Muito menos aqui.
Porque depois das últimas semanas talvez alguém esteja tentando entender exatamente que raio de publicação musical é essa.
Ana Castela entrou.
Dua Lipa entrou.
Shakira entrou.
Elton John entrou.
Michael Jackson entrou.
BABYMETAL entrou.
Arch Enemy entrou.
Judas Priest entrou.
Crypta entrou.
Country.
Pop.
Rock.
Metal.
MPB.
Brasil.
Japão.
Europa.
Estados Unidos.
Aí alguém olha para a porta e pergunta:
— Agora quem vem?
MANO BROWN, ICE BLUE, EDI ROCK E KL JAY.
😂🔥
Pronto.
Agora ficou mais divertido.
Porque chegou a vez do rap nacional.
E não com qualquer história.
Estamos falando de Racionais MC’s abrindo um arquivo de vinte anos atrás para mostrar aquilo que, por causa de um acidente técnico, quase desapareceu da história.
“1000 TRUTAS, 1000 TRETAS”
7 de outubro de 2006.
Há exatamente vinte anos, Racionais MC’s lançavam seu primeiro DVD:
1000 Trutas, 1000 Tretas
Para quem olha de longe, pode parecer apenas:
“DVD ao vivo de uma banda.”
Não.
Nem perto.
O projeto virou um dos grandes documentos audiovisuais do rap brasileiro.
E vinte anos depois existe uma história dentro dessa história que finalmente vai sair da gaveta.
Nesta quarta-feira, dia 7, ao meio-dia, o canal Racionais TV recebe:
42 MINUTOS DE IMAGENS INÉDITAS.
Material da gravação original.
Não a apresentação que todo mundo conhece do DVD.
A primeira.
Aquela que deveria ter virado o registro oficial.
E não virou.
PORQUE DEU MERDA.
Pronto.
É exatamente isso. 😂
O plano original era gravar o grupo numa casa com capacidade para aproximadamente três mil pessoas.
Só que havia um pequeno problema na matemática.
Racionais MC’s já eram grandes demais para três mil pessoas.
O público apareceu em quantidade muito maior que o esperado.
Superlotação.
Gente demais.
Pressão demais sobre a estrutura.
E no meio daquela situação...
cabos usados na captação foram danificados.
Resultado?
Áudio comprometido.
Vídeo comprometido.
Material sem qualidade suficiente para se transformar no DVD que o grupo pretendia lançar.
Anos de carreira.
Produção.
Palco.
Público.
Câmeras.
Gravação.
E então:
NÃO SERVE.
Qualquer um entenderia a vontade de sentar no chão e olhar para a parede durante aproximadamente três dias.
😂
Só que Racionais fez outra coisa.
“A GENTE PODIA TER PARADO ALI”
Mano Brown resumiu o momento.
Eles poderiam ter encerrado aquela tentativa.
Não encerraram.
Juntaram o que tinham.
Bancaram outra diária.
E foram fazer tudo novamente.
Só que dessa vez escolheram outro lugar.
SESC ITAQUERA.
Zona Leste de São Paulo.
E a segunda tentativa aconteceu em:
1º de janeiro de 2004.
Diante de...
15 MIL PESSOAS.
Quinze.
Mil.
O problema da primeira gravação havia sido gente demais.
A solução dos Racionais aparentemente foi:
“Então chama mais gente.”
😂🔥
E dessa segunda chance nasceu o registro que entrou para a história.
O REPERTÓRIO NÃO PRECISA DE MUITA APRESENTAÇÃO
Foram 15 músicas.
E basta começar a listar algumas:
“Diário de um Detento”.
“Negro Drama”.
“Jesus Chorou”.
“Vida Loka, Pt. 1”.
“Vida Loka, Pt. 2”.
Isso não é simplesmente uma sequência de faixas.
São músicas que passaram a ocupar espaço na própria memória cultural brasileira.
Você pode não ouvir rap todos os dias.
Pode não conhecer toda a discografia dos Racionais.
Pode vir de outro gênero.
Mas é difícil contar a história da música brasileira das últimas décadas fingindo que essas músicas não existem.
EXISTEM.
E muito.
E TEM JORGE BEN JOR NESSA HISTÓRIA
Porque aparentemente o negócio ainda não estava brasileiro o suficiente.
😂
A abertura contou com Jorge Ben Jor, em:
“A Bênção Mamãe, A Bênção Papai”.
Olha a ponte.
Uma geração conversando com outra.
Samba-rock.
Funk brasileiro.
Black music.
Rap.
Periferia.
São Paulo.
História circulando de uma música para outra.
É justamente aí que reduzir Racionais apenas à palavra “rap” começa a ficar pequeno demais.
E O DVD SAIU SEM UMA GRANDE GRAVADORA SEGURANDO A MÃO DE NINGUÉM
Dois anos depois daquela apresentação no Sesc Itaquera, 1000 Trutas, 1000 Tretas chegou ao mercado pela:
COSA NOSTRA FONOGRÁFICA.
A gravadora dos próprios Racionais.
A tiragem inicial foi de 15 mil cópias.
O investimento passou de R$ 400 mil na época.
Pensa no tamanho da decisão.
A primeira gravação falha.
Você banca outra.
Produz.
Registra.
Edita.
E lança através da própria estrutura.
Isso também faz parte da história do Racionais MC’s.
INDEPENDÊNCIA NÃO ERA SLOGAN.
Era operação.
E “1000 TRUTAS, 1000 TRETAS” NÃO PAROU NO PALCO
Essa é uma parte fundamental.
O DVD não funciona apenas como registro de show.
Entre seus extras existe um documentário dedicado à história da música negra e dos bailes negros da periferia de São Paulo.
E o recorte volta longe.
Da escravidão no século XIX aos bailes e movimentos culturais que atravessaram o século XX e chegaram aos anos 1980.
Mano Brown pesquisou imagens em arquivos de televisão.
E dirigiu o filme.
Ou seja:
muito antes de Mano a Mano mostrar Brown entrevistando, investigando, perguntando e organizando histórias através do áudio...
essa curiosidade já estava ali.
PORQUE RACIONAIS SEM CONTEXTO É METADE DOS RACIONAIS
As músicas não apareceram no vácuo.
“Negro Drama” não apareceu no vácuo.
“Diário de um Detento” não apareceu no vácuo.
“Vida Loka” não apareceu no vácuo.
Existe território.
Existe classe.
Existe raça.
Existe violência.
Existe desigualdade.
Existe São Paulo.
Existe periferia.
Existe música negra brasileira antes deles.
Existe música negra americana chegando aqui.
Existem bailes.
Existem DJs.
Existem histórias que foram passando de geração para geração.
O documentário dentro do DVD ajudava justamente a mostrar:
DE ONDE ESSA MÚSICA VEIO.
E AGORA VOLTAMOS ÀQUELA PRIMEIRA GRAVAÇÃO
A que deu errado.
A que não poderia virar o DVD.
A que ficou para trás enquanto a apresentação do Sesc Itaquera se transformava na versão conhecida pelo público.
Vinte anos depois...
ELA VOLTA.
São 42 minutos daquele material original chegando ao Racionais TV.
E isso muda a natureza daquele “erro”.
Porque aquilo que em 2004 era material tecnicamente comprometido agora também é:
DOCUMENTO.
Um pedaço do Racionais naquele momento.
Um pedaço daquele público.
Um pedaço daquela época.
Um pedaço da história que existia antes da segunda tentativa virar definitiva.
ICE BLUE RESUMIU MUITO BEM
A ideia é devolver aquela história para quem estava lá...
e apresentar para:
quem nem tinha nascido.
Essa frase explica perfeitamente por que abrir arquivo importa.
Porque memória musical não serve apenas para quem viveu aquilo.
Serve para a pessoa que tem 17 anos hoje, encontra Racionais agora e pergunta:
“Como isso chegou até aqui?”
Pronto.
Abre o arquivo.
Mostra.
E AGORA VAMOS FAZER O QUE A PASSPORT GOSTA DE FAZER
Chega de falar sobre música sem ouvir música.
E aqui não tem videoclipe.
TEM RACIONAIS AO VIVO.
🎬 RACIONAIS MC’S — “NEGRO DRAMA” — RACIONAIS 3 DÉCADAS AO VIVO
`
Aumenta.
Porque “Negro Drama” não é música para deixar tocando baixinho enquanto você decide o que vai pedir no delivery.
ESCUTA.
E SIM: É A PRIMEIRA VEZ QUE O RAP ENTRA DESTA FORMA NA PASSPORT
E talvez alguém pergunte:
— Mas Passport Radio agora vai falar de rap?
Resposta:
POR QUE NÃO FALARIA?
😂
Essa talvez seja a pergunta mais fácil que apareceu por aqui.
Tem história?
Tem música?
Tem relevância?
Tem algo para contar?
Então acabou.
Entra.
NÃO VAMOS CRIAR UM CONDOMÍNIO DE GÊNEROS
Metal mora aqui.
Rap mora ali.
Country não pode entrar.
Pop só até determinada hora.
MPB usa o elevador de serviço.
Rock clássico é síndico.
😂
NÃO.
Isso é justamente o tipo de publicação musical engessada que a Passport não quer virar.
Porque olha a sequência que já passou por aqui.
Alice Cooper.
Elton John.
Dua Lipa.
Shakira.
Ana Castela.
BABYMETAL.
Arch Enemy.
Judas Priest.
Crypta.
E agora:
RACIONAIS MC’S.
Se alguém olhar para isso e concluir:
“A Passport enlouqueceu.”
Excelente.
Estamos começando a acertar. 😂🔥
PORQUE O NOME DISSO NÃO É CONFUSÃO
É:
MÚSICA.
A Passport não precisa escolher entre contar uma história de death metal brasileiro e contar uma história do rap brasileiro.
As duas existem.
As duas importam.
E ambas podem levar alguém a descobrir algo que nunca ouviria dentro da própria bolha.
Essa é a parte divertida.
Você chega por Racionais.
Pode sair ouvindo Jorge Ben Jor.
Daqui encontra outra coisa.
Vai para outra rádio.
Descobre outro artista.
Volta amanhã.
Cai em metal.
Depois country.
Depois soul.
Depois rock brasileiro.
DEIXA A MÚSICA FAZER A BAGUNÇA.
E TEMOS VÁRIAS RÁDIOS PARA ISSO
Terminou a matéria?
Não precisa terminar a visita.
Escolha uma das rádios da Passport.
Explore.
Peça música.
Descubra alguma coisa.
Você pode chegar procurando uma coisa e encontrar outra completamente diferente.
Melhor ainda.
Porque algoritmo nenhum deveria conhecer sua curiosidade melhor do que você.
QUER OUVIR ALGUMA COISA? PEÇA.
Tem música que deveria tocar?
MANDA O PEDIDO.
Tem artista que estamos esquecendo?
Fala.
Tem um nome do rap independente que deveríamos conhecer?
MANDA.
Tem alguém fazendo som na periferia e ninguém está dando espaço?
Apresenta.
E ISSO VALE PARA QUEM FAZ RAP TAMBÉM
Tem uma faixa gravada em casa?
MANDA.
Tem demo?
Manda.
Tem beat?
Tem clipe independente?
Tem apresentação?
Tem batalha?
Tem projeto novo?
Tem coletivo?
Tem uma história que merece matéria?
MANDA ESSA DROGA PRA CÁ.
😂🔥
A mesma porta que abrimos para banda de garagem precisa estar aberta para MC independente.
Para DJ.
Para produtor.
Para beatmaker.
Para quem está começando.
Para quem não tem assessoria.
Para quem não tem gravadora.
Para quem não tem milhões de seguidores.
ENQUANTO ALGUNS FECHAM AS PORTAS...
NÓS ABRIMOS.
E essa frase faz ainda mais sentido numa matéria sobre Racionais.
Porque estamos falando de um grupo que construiu uma parte gigantesca da própria trajetória sem esperar uma grande estrutura tradicional decidir que estava autorizado a existir.
Então seria ridículo contar essa história e depois dizer para o artista independente:
“Volte quando você tiver números.”
Não.
Tem história?
MOSTRA.
Tem música?
MANDA.
QUER ESCREVER PARA A PASSPORT?
Também pode.
Quer contar uma história sobre rap nacional?
Manda.
Sobre um disco?
Manda.
Sobre uma cena local?
Manda.
Sobre um artista independente?
Manda.
Tem fotos?
Arquivo?
Entrevista antiga?
Vídeo?
Podcast?
Material de show?
PARTICIPE.
A Passport não quer uma plateia silenciosa olhando a redação trabalhar atrás de um vidro.
Quer circulação.
Gente descobrindo gente.
E TEM O APOIE
Porque essa máquina precisa continuar funcionando.
Servidor custa.
Infraestrutura custa.
Ferramenta custa.
Arquivo custa.
Crescer custa.
Quem puder ajudar financeiramente:
AJUDA PRA CACETE.
E “cacete” pode, jurídico. 😂
Agora a parte mais importante:
R$ 0 DISPONÍVEL? NADA MUDA.
Você continua podendo ajudar.
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Ouça.
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Apresente artistas.
Mande uma matéria.
Divulgue uma rádio.
Mostre a Passport para alguém.
Participação também sustenta uma casa independente.
PORQUE A GENTE QUER TRANSFORMAR ISSO NUMA MÁQUINA
Não uma página que publica matéria e fica esperando Google mandar alguém.
Uma máquina de circulação.
Matéria leva para música.
Música leva para rádio.
Rádio leva para descoberta.
Descoberta vira pauta.
Leitor vira colaborador.
Banda independente encontra público.
Arquivo antigo volta a circular.
Uma história puxa outra.
E o catálogo cresce sem precisar ficar repetindo eternamente os mesmos dez artistas porque são “seguros para SEO”.
SEO importa?
Claro.
E esta matéria tem naturalmente tudo que precisa:
Racionais MC’s. Mano Brown. Ice Blue. Edi Rock. KL Jay. 1000 Trutas, 1000 Tretas. Negro Drama. Diário de um Detento. Jesus Chorou. Vida Loka. Rap nacional. Hip-hop brasileiro. Sesc Itaquera. São Paulo.
Pronto.
Google pode ler.
AGORA DEIXA O HUMANO LER TAMBÉM.
Vinte anos depois, aqueles 42 minutos que poderiam ter desaparecido por causa de cabos danificados finalmente voltam para o público.
Uma gravação que falhou tecnicamente.
Uma segunda tentativa diante de 15 mil pessoas.
Um DVD independente.
Um documento sobre música negra.
Uma obra que atravessou duas décadas.
E quatro nomes que dispensam apresentação:
Mano Brown.
Ice Blue.
Edi Rock.
KL Jay.
Na primeira matéria dedicada ao rap na Passport Radio, dava para escolher uma entrada discreta.
Não escolhemos.
RACIONAIS MC’S ENTRARAM SEM PEDIR LICENÇA.
Do jeito certo.
E agora que a porta abriu...