
Lambrini Girls entram no porão da machosfera — e saem de lá com duas músicas completamente diferentes
“The Basement” e “Spilt” antecipam No Refunds, segundo álbum do duo punk de Brighton. Uma ataca a radicalização masculina na internet. A outra abaixa as guitarras e encara a dependência do álcool. E no meio disso tudo ainda cabe um show inteiro. Porque aqui cabe.
Mr. Nomad
Tem banda que lança dois singles de uma vez porque alguém no departamento de marketing descobriu que duas músicas geram duas oportunidades de colocar “OUÇA AGORA” numa postagem.
E tem as Lambrini Girls.
Phoebe Lunny e Selin Macieira-Boşgelmez resolveram apresentar mais dois pedaços de No Refunds mostrando praticamente duas bandas diferentes dentro da mesma banda.
De um lado está “The Basement”, punk nervoso, ácido e disposto a enfiar a cabeça num dos cantos mais desagradáveis da internet.
Do outro está “Spilt”, acústica, vulnerável e muito mais interessada em olhar para dentro.
As duas pertencem ao mesmo disco.
E, estranhamente, isso faz todo sentido.
THE BASEMENT — BEM-VINDO AO PORÃO. NÃO ACEITE CONSELHOS DE VIDA DE NINGUÉM AQUI.
“The Basement” olha para os espaços digitais onde homens frustrados encontram outros homens frustrados, que encontram influenciadores frustrados, que encontram algoritmos muito felizes em descobrir que frustração dá engajamento para cacete.
A própria banda resumiu a personagem da música como um “homenzinho triste que se radicaliza na machosfera”.
É engraçado até você lembrar que essa esteira existe.
Solidão vira ressentimento.
Ressentimento ganha uma explicação conveniente.
A explicação ganha um culpado.
O culpado quase sempre é mulher, feminismo, imigrante, minoria, “a sociedade”, alguém que não respondeu uma mensagem ou qualquer outra coisa que evite a possibilidade aterrorizante de o sujeito olhar para si mesmo durante cinco minutos.
E pronto.
O porão ganhou outro morador.
Lambrini Girls não aparecem com uma palestra acadêmica de três horas e 74 slides sobre radicalização digital.
Elas fazem punk.
Muito mais eficiente.
SPILT — E DE REPENTE ELAS DESLIGARAM A MOTOSSERRA
Aí você vira o disco imaginário para o outro lado e encontra “Spilt”.
Sem a mesma pancadaria.
Sem a necessidade de transformar cada segundo em confronto.
A faixa entra por outro caminho: dependência do álcool, vulnerabilidade e aquela parte desagradável da vida em que a piada acaba e sobra você olhando para o que está fazendo consigo mesmo.
É uma mudança grande para uma banda que construiu boa parte de sua identidade em cima de guitarras, confronto, humor ácido e apresentações capazes de deixar a impressão de que alguma coisa no palco talvez precise ser substituída depois.
E justamente por isso funciona.
A dupla disse que foi emocionante e desafiador fazer algo tão diferente do restante do álbum e do que costuma fazer, tentando preservar o impacto por outro caminho.
Traduzindo:
não precisa berrar para acertar alguém no peito.
Às vezes basta baixar o volume.
NO REFUNDS. O NOME JÁ AVISOU.
As duas músicas estarão em No Refunds, segundo álbum das Lambrini Girls, previsto para 15 de janeiro de 2027.
O disco sucede Who Let The Dogs Out, estreia lançada em 2025, e chega num momento em que a dupla acredita que o mundo conseguiu a proeza de ficar ainda pior.
Parabéns ao mundo.
Sempre superando expectativas.
Antes de “The Basement” e “Spilt”, já haviam aparecido “Cult of Celebrity” e a explosiva “Bang Bang Bang”, abrindo caminho para um álbum que pretende continuar usando punk, sarcasmo e desconforto para falar de assuntos que dificilmente caberiam numa playlist chamada Good Vibes Only.
Entre eles estão inteligência artificial, fascismo, genocídio, direitos reprodutivos e machosfera.
Levinho.
Ótimo para colocar no almoço de domingo e observar quem começa a discutir primeiro.
MAS QUEM DIABOS SÃO AS LAMBRINI GIRLS?
Se você chegou aqui porque o título falou em machosfera e o Google resolveu jogar você dentro da Passport Radio, seja bem-vindo.
Puxe uma cadeira.
MAS NÃO AQUELA.
🪑
As Lambrini Girls são um duo punk de Brighton formado por Phoebe Lunny e Selin Macieira-Boşgelmez.
E antes que alguém pergunte onde estão os outros três integrantes:
não estão.
São duas.
Duas pessoas fazendo barulho suficiente para parecer que alguém esqueceu quinze músicos ligados atrás do palco.
A banda ganhou atenção com apresentações caóticas, letras políticas, humor agressivo e uma disposição bastante pequena para tratar assuntos desconfortáveis com delicadeza ornamental.
É punk.
Não reunião de condomínio.
E JÁ QUE FALAMOS EM PALCO...
Temos vídeo?
Temos.
Temos uma música?
Não.
Duas?
Também não.
TEMOS A DROGA DO CAOS INTEIRO PARA VOCÊS ASSISTIREM!
LAMBRINI GIRLS — FULL SHOW | ROCKPALAST | 2025
O registro completo feito pelo Rockpalast/WDR em Colônia, Alemanha, mostra justamente por que tentar explicar Lambrini Girls apenas descrevendo gravações de estúdio deixa metade da história do lado de fora.
Porque se existe uma gravação inteira boa, não vamos colocar 37 segundos e mandar você imaginar o restante.
A vida já exige imaginação demais.
“MAS ESSA BANDA JÁ É CONHECIDA.”
Sim.
E?
A Passport Radio não existe para publicar exclusivamente artista desconhecido.
Existe para contar histórias de música.
Às vezes a história vem de uma banda que já está atravessando continentes.
Às vezes vem de cinco bandas que acabamos de encontrar fuçando a internet.
E às vezes chega por e-mail de uma banda que ensaia numa garagem, gravou um EP com dinheiro contado e tem dez seguidores — sendo sete parentes, dois integrantes e a mãe do baterista responsável por 83% dos streams.
Essa última também nos interessa.
Aliás...
TEM UMA BANDA? MANDA ESSA DROGA.
Sério.
Você lançou o primeiro single?
MANDA.
Gravou um EP?
MANDA.
Tem demo?
MANDA.
Fez videoclipe?
MANDA.
Gravou uma sessão ao vivo?
MANDA.
Tem um show registrado decentemente?
MANDA.
Tem um show registrado indecentemente porque o primo segurou o celular na vertical atrás de uma pilastra enquanto alguém gritava “MARCELOOOOO” perto do microfone?
Bom...
MANDA TAMBÉM.
A gente vê o que consegue fazer com isso.
“Mas ninguém conhece nossa banda.”
EXCELENTE.
Você acabou de entender por que estamos falando disso.
A INTERNET NÃO PRECISA DA 18.472ª DESCOBERTA DE QUE NIRVANA EXISTIU
Calma.
Nós gostamos de Nirvana.
E de Metallica.
Sepultura.
Megadeth.
Olha só:
NIRVANA.
METALLICA.
SEPULTURA.
MEGADETH.
Comeu já, Sr. SEO?
Gostoso?
Quer uma sobremesa?
Kurt Cobain. James Hetfield. Andreas Kisser. Dave Mustaine. Grunge. Thrash metal. Heavy metal. Rock. Punk rock. Rock alternativo.
Pronto.
Agora podemos continuar? 😌
Porque enquanto uma parte da internet musical disputa para descobrir quem consegue publicar pela décima vez a mesma história sobre as mesmas bandas gigantes, tem gente fazendo música hoje.
Em Brighton.
Em Minneapolis.
Em Singapura.
Em Vancouver.
Em São Paulo.
Em Recife.
Em Tóquio.
Em Varsóvia.
Em Guadalajara.
Ou numa garagem em algum lugar que nem aparece direito no mapa.
E essa gente também merece espaço.
A PASSPORT NÃO COBRA PARA PUBLICAR ARTISTA
Vamos escrever grande porque aparentemente certas coisas precisam ser escritas grande:
A PASSPORT RADIO NÃO COBRA PARA PUBLICAR ARTISTA EDITORIALMENTE.
Não existe:
“pacote descoberta”.
“plano artista emergente”.
“taxa de avaliação”.
“publicação orgânica premium”.
“mande R$ 299 e nossa equipe descobrirá espontaneamente sua banda”.
🙄
Se existe publicidade contratada, ela é PUBLICIDADE.
Se existe anúncio, ele é ANÚNCIO.
Publicidade é publicidade.
Editorial é editorial.
Não colocamos os dois escondidos embaixo da mesa e depois fingimos que ninguém percebeu.
Quer anunciar alguma coisa comercialmente na Passport? Temos espaço para isso.
Quer mandar sua música porque acha que existe uma história ali?
MANDA.
São coisas diferentes.
E continuarão sendo.
“MAS NOSSA GRAVAÇÃO FOI FEITA SEI LÁ ONDE...”
Melhor ainda.
Foi num porão?
Manda.
Num bar?
Manda.
Num quarto?
Manda.
Numa loja depois do expediente?
Manda.
Num estúdio profissional?
Manda.
No depósito do tio do baixista entre uma geladeira quebrada e quatro caixas de cerveja?
POR FAVOR, MANDA ESSA.
Porque música não começa quando uma gravadora decide que ela existe.
Não começa quando chega a 100 mil seguidores.
Não começa quando aparece uma assessoria escrevendo “fenômeno mundial” no assunto do e-mail.
Ela começa quando alguém faz música.
O resto vem depois.
Às vezes.
E É JUSTAMENTE AÍ QUE AS LAMBRINI GIRLS ENTRAM NESSA HISTÓRIA
“The Basement” e “Spilt” poderiam ser tratadas apenas como:
banda lança dois singles antes do novo álbum.
Pronto.
Matéria encerrada.
Obrigado pela visita.
Só que existem duas músicas radicalmente diferentes ali.
Uma olha para homens sendo tragados por comunidades digitais que transformam insegurança em ressentimento político.
A outra olha para dentro e fala de álcool, fragilidade e dependência.
Uma aponta o dedo.
A outra baixa a mão.
E as duas vêm das mesmas duas pessoas.
Isso é história.
É por isso que a Passport prefere começar por ela.
Depois vem a música.
AGORA É COM VOCÊ
Conhece uma banda pequena que deveria estar aqui?
MANDA PARA A PASSPORT.
Tem um projeto estranho que ninguém sabe onde encaixar?
Melhor ainda.
Conheceu uma artista com 43 ouvintes e uma música absurda?
Queremos ouvir.
Sua própria banda acabou de lançar alguma coisa?
Pare de esperar alguém “descobrir”.
MANDA.
Não prometemos fama.
Não prometemos contrato.
Não prometemos milhões de streams.
Não prometemos que o algoritmo vai ajoelhar e pedir desculpas.
Prometemos uma coisa muito mais simples:
se existir uma história que valha contar, queremos conhecê-la.
Hoje foram as Lambrini Girls.
Ontem foram cinco bandas encontradas durante uma fuçada que começou por acaso.
Amanhã pode ser Brighton.
Pode ser Singapura.
Pode ser Brasil.
Pode ser uma cidade de cinco mil habitantes.
Pode ser você.
A pergunta não é:
“QUANTOS SEGUIDORES VOCÊS TÊM?”
É:
O QUE VOCÊS TÊM PARA MOSTRAR?
Se a resposta for:
MÚSICA.
Então...
MANDA.
Passport Radio
Primeiro a história. Depois a música.