Sylvester Stallone durante o período de Rocky III
PASSPORT ARCHIVES · ROCK & CINEMA · 1982

Como Queen, Sylvester Stallone e uma guitarra quebrada ajudaram a criar o maior hino de 1982

Stallone queria Queen. Os direitos não vieram. Então Survivor recebeu uma missão — e nasceu um riff que o mundo nunca mais esqueceu.

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Algumas músicas entram num filme. Outras saem dele maiores que a própria cena.

“Eye of the Tiger” pertence à segunda categoria.

Basta ouvir os primeiros segundos para alguma coisa aparecer na cabeça.

Uma academia. Uma escadaria. Um ringue. Suor. Treinamento. Um homem se levantando novamente.

Pouquíssimas músicas conseguem comunicar uma ideia antes mesmo de a voz começar.

“Eye of the Tiger” consegue.

Mas talvez ela simplesmente não existisse se Sylvester Stallone tivesse conseguido aquilo que queria originalmente.

Uma música do Queen.

Às vezes a história do rock começa quando alguém escuta “sim”. Esta começou porque alguém precisou escutar “não”.

1982. Sylvester Stallone já não era apenas Rocky.

No final dos anos 1970, Sylvester Stallone havia realizado uma das transformações mais improváveis de Hollywood.

Rocky, lançado em 1976 a partir de um roteiro escrito pelo próprio Stallone, transformou o ator em astro mundial.

Vieram fama, sequências, dinheiro e uma personagem que rapidamente deixou de pertencer somente ao cinema.

Rocky Balboa virou símbolo.

Então chegou 1982.

Em maio, Rocky III estreou com Stallone novamente no papel principal — e também na direção.

Meses depois, em outubro, First Blood apresentaria ao público outra figura que se tornaria inseparável dele: John Rambo.

Era o ano em que Sylvester Stallone deixava definitivamente de ser apenas um ator de sucesso.

Tornava-se uma das grandes imagens da cultura popular dos anos 1980.

Antes do tigre, havia outro homem mordendo a poeira.

Durante a montagem provisória de Rocky III, Stallone utilizava uma música que parecia funcionar perfeitamente.

Queen.

“Another One Bites the Dust”.

Escrita por John Richard Deacon — John Deacon — a música tinha exatamente aquilo que uma sequência de treinamento precisava:

pulso.

repetição.

tensão.

movimento.

E aquele baixo.

Stallone queria a música no filme.

Só havia um problema.

A produção não conseguiu fechar os direitos necessários para utilizá-la.

E aquilo que parecia uma derrota abriu espaço para outra coisa.

A música que Stallone queria.

“Another One Bites the Dust” funcionava tão bem nas imagens provisórias que o desafio do Survivor não seria simplesmente escrever uma música nova.

Seria substituir uma música que já funcionava.

Aperte play aqui mesmo. Você continua dentro da Passport Radio.

Então Sylvester Stallone telefonou para o Survivor.

Stallone conhecia o trabalho da banda.

Através de sua equipe, chegou a dois homens que seriam fundamentais para o que aconteceu depois:

James Michael Peterik — Jim Peterik.

Frankie Michael Sullivan III — Frankie Sullivan.

Peterik era tecladista, guitarrista, compositor e um dos fundadores do Survivor.

Sullivan era guitarrista, compositor e uma das forças responsáveis pela musculatura sonora do grupo.

A missão parecia simples quando escrita numa frase:

fazer uma música para Rocky III.

Mas havia um pequeno problema.

O espaço que eles precisavam ocupar estava sendo temporariamente preenchido pelo Queen.

Como você substitui uma música que já encaixa perfeitamente? Criando outra que pareça ter nascido dentro da própria cena.

O riff precisava socar.

Essa talvez seja a chave para entender por que “Eye of the Tiger” funciona tão bem.

A música não simplesmente acompanha uma luta.

Parte de sua arquitetura parece lutar.

Os ataques curtos da guitarra criam uma sensação física:

golpe.

espaço.

golpe.

espaço.

O riff não precisa de velocidade absurda.

Não precisa de dezenas de notas.

Precisa de impacto.

É exatamente isso que ele entrega.

Escute sem pensar em Rocky. Você ainda sente alguma coisa avançando em sua direção.

O olho do tigre não era força. Era fome.

A expressão que daria nome à música nasceu do próprio universo dramático de Rocky III.

Rocky não havia simplesmente perdido velocidade ou técnica.

Havia perdido uma coisa muito mais perigosa.

Fome.

Apollo Creed tenta fazê-lo reencontrar o instinto que existia antes do sucesso, do conforto e da celebridade.

O “eye of the tiger” é justamente isso.

Concentração.

Instinto.

Urgência.

A sensação de que você ainda precisa lutar.

E esse detalhe explica parte da longevidade da canção.

Você não precisa ser boxeador.

Nem sequer precisa conhecer Rocky Balboa.

Basta já ter precisado levantar outra vez.

Quem estava dentro daquela máquina.

VOCALS

David Bickler — Dave Bickler

A voz de “Eye of the Tiger”. Bickler não canta a música como quem observa uma luta. Ele canta como alguém que precisa fazer você entrar nela.

KEYBOARDS · GUITAR · SONGWRITING

James Michael Peterik — Jim Peterik

Tecladista, guitarrista e compositor. Uma das cabeças responsáveis por converter o movimento visto na tela em linguagem musical.

BASS

Stephen Ellis — Stephan Ellis

O chão da gravação. O baixo sustenta a pulsação e permite que guitarra e bateria avancem sem que a música perca peso.

DRUMS

Marc Droubay — Marc Droubay

O motor corporal. A bateria organiza os golpes, mantém a música avançando e transforma repetição em movimento.

A guitarra quebrada. E a melhor ironia possível.

Entre as histórias ligadas à gravação existe uma que parece ter sido escrita por um roteirista.

Frankie Sullivan contou que utilizou na gravação um instrumento que havia sido quebrado e depois colado novamente.

Não precisamos transformar isso em mito maior do que já é.

A imagem funciona sozinha.

Uma música sobre resistência.

Uma música sobre voltar.

Uma música sobre continuar depois de apanhar.

E, em parte, uma guitarra que literalmente havia quebrado continuava trabalhando.

Mr. Nomad anota apenas: apropriado.

Não. Não foram simplesmente dez minutos.

Grandes sucessos costumam produzir grandes simplificações.

Uma das versões mais repetidas diz que “Eye of the Tiger” teria sido escrita em aproximadamente dez minutos.

Os relatos dos próprios compositores descrevem um processo que se desenvolveu ao longo de alguns dias.

Peterik e Sullivan trabalhavam observando diretamente as imagens.

Ajustavam a estrutura.

Refinavam o riff.

Construíam a música ao redor do movimento.

Isso não diminui a história.

Torna tudo ainda melhor.

Eles tinham Queen como referência temporária.

Sylvester Stallone esperando.

Um filme precisando de identidade.

E poucos dias depois havia uma música que acabaria competindo culturalmente com o próprio filme que a originou.

Agora tire Rocky da equação.

É aqui que a música prova que não dependia do cinema.

O riff sobe ao palco, encontra outro público e continua funcionando sozinho.

Aperte play aqui mesmo. Você continua dentro da Passport Radio.

1982 estava fazendo barulho em todas as direções.

“Eye of the Tiger” não apareceu num ano vazio.

No Brasil, uma geração começava a mudar a relação do grande público com o rock nacional.

Blitz — Você Não Soube Me Amar 1982
Lulu Santos — Tempos Modernos 1982
Barão Vermelho — Barão Vermelho 1982

Enquanto isso, internacionalmente, várias músicas que sobreviveriam às próprias décadas estavam dominando rádio, televisão e cultura popular.

Joan Jett & The Blackhearts — I Love Rock 'n Roll 1982
Paul McCartney & Stevie Wonder — Ebony and Ivory 1982
Olivia Newton-John — Physical 1981–82
Survivor — Eye of the Tiger 1982

Era também a era em que MTV, imagem, cinema e música começavam a se tornar cada vez mais difíceis de separar.

E “Eye of the Tiger” tinha todas essas coisas dentro de uma única gravação.

O filme foi enorme. A música ficou ainda maior.

“Eye of the Tiger” chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos.

Também chegou ao topo no Reino Unido.

Tornou-se o maior sucesso da carreira do Survivor.

Ganhou Grammy.

Recebeu indicação ao Oscar.

Mas os números contam apenas uma parte.

O verdadeiro triunfo aconteceu quando a música deixou de precisar de Rocky III.

Academia.

Boxe.

Futebol.

Estádio.

Propaganda.

Treinamento.

Paródia.

Quatro décadas depois, basta o riff começar.

Ninguém precisa explicar o que significa.

Porque Rocky nunca foi realmente o assunto.

Essa talvez seja a razão mais simples para “Eye of the Tiger” continuar funcionando.

A música nasceu para Rocky.

Mas não fala apenas de Rocky.

Fala de cair.

Fala de conforto.

Fala de perder a fome.

Fala de perceber que alguma coisa dentro de você ficou para trás.

E então fala de recuperar.

Quase todo mundo, em algum momento da vida, entende isso.

Por isso uma música escrita para uma sequência de boxe encontrou pessoas que nunca pisaram num ringue.

Quatro detalhes que mudam a música quando você conhece a história.

01

“Another One Bites the Dust”, do Queen, foi utilizada como referência temporária durante a montagem de Rocky III.

02

Stallone procurou o Survivor porque precisava de uma música original capaz de carregar a energia física do filme.

03

O ataque do riff foi construído para dialogar com os movimentos e golpes vistos nas imagens.

04

Frankie Sullivan relatou ter utilizado na gravação uma guitarra que havia sido quebrada e depois colada novamente.

Talvez “Eye of the Tiger” nunca tivesse existido se Queen tivesse dito sim.

Talvez Rocky III tivesse funcionado perfeitamente com “Another One Bites the Dust”.

Provavelmente teria.

Mas existe uma enorme diferença entre uma ótima música usada num filme...

e uma música que nasceu porque aquele filme precisava dela.

Queen forneceu o problema.

Sylvester Stallone forneceu as imagens.

Jim Peterik e Frankie Sullivan encontraram o pulso.

Dave Bickler deu voz.

Stephan Ellis colocou o chão.

Marc Droubay deu movimento.

E uma guitarra que já havia quebrado continuou tocando.

Talvez seja por isso que essa música tenha envelhecido tão bem.

Ela nasceu de uma coisa que todo mundo conhece.

A necessidade de continuar.

Às vezes uma porta fechada não interrompe uma história.

Às vezes ela produz um riff.

— Mr. Nomad