
Björk entra pela porta da frente da Passport Radio — há 15 anos ela transformou um álbum em aplicativo porque simplesmente fazer um disco parecia pouco
“Biophilia” juntou música, tecnologia, ciência, jogos, animações e partituras em 2011 e se tornou o primeiro álbum-aplicativo do mundo. Para entender como uma islandesa saída de Reykjavík chegou até ali, voltamos até The Sugarcubes em 1988 — e depois atravessamos décadas com uma artista que nunca pareceu muito interessada em fazer o que já estava pronto
Mr. Nomad
PRIMEIRO UMA PERGUNTA.
Você sabe onde fica a Islândia?
Não vale abrir o Google Maps.
😂
Porque existe uma chance razoável de alguém conhecer Björk há trinta anos, saber cantar alguma música dela, reconhecer aquela voz em três segundos...
e ainda precisar dar aquela pequena pensada:
— Islândia... Islândia...
É AQUELA ILHA LÁ EM CIMA.
😂
Atlântico Norte.
Reykjavík.
Vulcões.
Geleiras.
Pouca gente.
E um belo dia aquele lugar resolveu entregar ao planeta:
BJÖRK.
A partir daí, explicar exatamente o que ela faz ficou sendo problema nosso.
E JÁ AVISAMOS: NÃO É FÁCIL
Cantora?
Sim.
Compositora?
Sim.
Atriz?
Também.
Música eletrônica?
Sim.
Pop?
Sim.
Alternativo?
Sim.
Experimental?
Sim.
Orquestral?
Também.
Arte visual?
Tecnologia?
Cinema?
Ciência?
Aplicativos?
Natureza?
Instrumentos que parecem ter sido construídos por alguém que ignorou o manual?
SIM.
Tudo isso.
Às vezes na mesma obra.
😂
Talvez a melhor maneira de apresentar Björk para alguém que nunca ouviu seja justamente:
não tente encontrar uma gaveta primeiro.
Aperta o play.
Depois a gente tenta resolver o resto.
MAS ANTES DE “BIOPHILIA”...
Vamos fazer uma pequena viagem no tempo.
Porque Björk não apareceu em 2011 segurando um iPad e dizendo:
“Tenho uma ideia.”
😂
Ela nasceu em Reykjavík, na Islândia, em 1965.
E começou cedo.
Muito cedo.
Aos 11 anos, já havia gravado uma coleção de canções.
Depois vieram diferentes experiências musicais até uma banda islandesa começar a atravessar as fronteiras do país:
THE SUGARCUBES.
E é aqui que nossa máquina do tempo para primeiro.
1988.
Björk ainda estava anos distante da carreira solo que transformaria seu nome numa referência mundial.
Mas aquela voz...
já estava lá.
Aquela maneira estranha, explosiva, delicada, imprevisível de cantar...
já estava lá.
E temos prova.
🎬 THE SUGARCUBES — “DEUS” — LIVE — 1988
`
Olha isso.
Não é apenas colocar um vídeo antigo porque:
“Nossa, como ela era jovem.”
Não.
PRESTA ATENÇÃO NA BJÖRK.
Depois guarda essa imagem.
Porque vamos pular mais de duas décadas.
1993: “DEBUT”
O nome quase parece uma piada.
Porque quando Björk lançou Debut, sua estreia solo internacional em 1993, ela já estava longe de ser uma principiante.
Só que aquele disco apresentou outra Björk ao mundo.
E daí para frente tentar prever o próximo passo virou um esporte de alto risco.
Ela poderia entrar na eletrônica.
Depois puxar cordas.
Depois experimentar com voz.
Depois construir paisagens sonoras completamente diferentes.
Depois misturar coisas que no papel provavelmente não deveriam funcionar juntas.
E fazer funcionar.
A regra parecia ser:
NÃO REPETIR A RESPOSTA SÓ PORQUE ELA FUNCIONOU DA PRIMEIRA VEZ.
AÍ CHEGAMOS A 2011
Agora imagina a reunião.
— Björk, precisamos pensar no próximo álbum.
— Certo.
— Dez músicas?
— Sim.
— CD?
— Também.
— Digital?
— Claro.
— Mais alguma coisa?
Björk:
“QUERO TRANSFORMAR CADA MÚSICA NUM APLICATIVO.”
Silêncio.
😂😂😂
Provavelmente alguém perguntou onde ficava a saída de emergência.
NASCIA “BIOPHILIA”
Em 5 de outubro de 2011, Björk lançava seu sétimo álbum:
BIOPHILIA
Só que chamar aquilo simplesmente de “álbum” era insuficiente.
Desenvolvido em parceria com a Apple e com o artista e desenvolvedor Scott Snibbe, o projeto transformava as músicas em experiências interativas.
E aqui precisamos lembrar:
ERA 2011.
Hoje colocamos música, vídeo, mapa, jogo, câmera, banco, televisão e metade da nossa existência dentro do celular e achamos normal.
Naquele momento, a ideia de um álbum pensado também como plataforma interativa era outra conversa.
ERAM DEZ MÚSICAS.
E:
DEZ APLICATIVOS INTERATIVOS.
Um relacionado a cada faixa.
Com:
jogos.
Animações.
Partituras.
Interação.
Exploração dos conceitos das músicas.
E ainda havia um aplicativo-mãe, funcionando como centro daquele pequeno universo e dando acesso aos demais.
Ou seja:
você não simplesmente comprava o disco.
VOCÊ ENTRAVA NELE.
E É AQUI QUE “BIOPHILIA” FICA REALMENTE INTERESSANTE
Porque tecnologia pela tecnologia envelhece rápido.
Muito rápido.
O aparelho muda.
O sistema operacional muda.
A tela muda.
O aplicativo para de funcionar.
Acabou.
Só que a ideia de Biophilia era maior.
Björk queria aproximar:
MÚSICA + NATUREZA + TECNOLOGIA.
Não colocar um aplicativo em cima de dez músicas só para poder escrever:
INTERATIVO
na propaganda.
O formato fazia parte do conceito.
OLHA OS NOMES DAS MÚSICAS
- Moon
- Thunderbolt
- Crystalline
- Cosmogony
- Dark Matter
- Hollow
- Virus
- Sacrifice
- Mutual Core
- Solstice
Lua.
Trovão.
Cristais.
Cosmogonia.
Matéria escura.
Vírus.
Núcleo.
Solstício.
Não é exatamente:
“Amor, você me deixou e estou triste.”
😂
Björk estava olhando para estruturas da natureza, física, espaço, biologia e relações entre sistemas...
e transformando aquilo em música.
“CRYSTALLINE” FOI A PORTA MAIS VISÍVEL
Entre os singles que antecederam o álbum estavam:
“Crystalline”.
“Cosmogony”.
“Moon”.
“Virus”.
“Crystalline” tornou-se a faixa de maior destaque comercial do projeto.
E aqui já podemos pular novamente no tempo.
Porque uma música lançada dentro daquele experimento de 2011 continuou existindo muito depois do aplicativo.
🎬 BJÖRK — “CRYSTALLINE” — JOOLS HOLLAND LIVE — 2023
`
2011 → 2023.
É exatamente por isso que colocamos esse vídeo aqui.
O software envelhece.
A plataforma envelhece.
O aparelho envelhece.
A MÚSICA CONTINUA.
E “BIOPHILIA” TAMBÉM FOI PARA O PALCO
Porque transformar um disco em aplicativo aparentemente ainda não era trabalho suficiente.
😂
O projeto ganhou vida ao vivo.
E aí aquilo que existia entre tela, conceito, composição e interação precisava virar:
performance.
🎬 BJÖRK — “MOON” — BIOPHILIA LIVE — 2014
`
Agora compara.
The Sugarcubes — 1988.
Biophilia — 2014.
Crystalline — 2023.
São décadas diferentes da mesma artista.
E isso talvez explique Björk melhor que qualquer definição de gênero.
PORQUE ELA NÃO FICOU PARADA ESPERANDO O MUNDO ALCANÇÁ-LA
Essa é uma das coisas deliciosas dessa história.
Você pode gostar muito de Biophilia.
Pode preferir outro disco.
Pode achar determinada experiência genial.
Pode achar outra completamente maluca.
Tudo bem.
A questão interessante é que Björk continuou tentando.
E tentativa artística de verdade inclui o risco de alguém olhar e perguntar:
“Mas para que diabos você fez isso?”
😂
A resposta às vezes é simplesmente:
PORQUE DAVA PARA FAZER.
E O MUNDO PRESTOU ATENÇÃO
Biophilia estreou na 27ª posição da Billboard 200.
Chegou ao primeiro lugar da Billboard Dance/Electronic Albums.
E recebeu duas indicações ao Grammy.
Levou o prêmio de:
MELHOR PROJETO GRÁFICO DE ÁLBUM.
O reconhecimento faz sentido.
Porque separar música e apresentação visual naquele projeto era praticamente impossível.
Era tudo parte da mesma criatura.
E TEM OUTRO DETALHE BONITO: O PRIMEIRO LUGAR A RECEBER “BIOPHILIA”
JAPÃO.
Foi o mercado escolhido para a estreia oficial e o primeiro a receber a edição física.
Depois vieram Reino Unido e Estados Unidos, em 11 de outubro.
Outra islandesa atravessando o planeta.
Aliás...
a Passport anda perigosamente cheia de gente que resolveu ignorar fronteira.
😂
E AGORA BJÖRK ENTRA NA PASSPORT RADIO
Pela porta da frente.
Sem precisar decidir antes:
— Ela entra no pop?
— Eletrônico?
— Alternativo?
— Experimental?
— Arte?
SIM.
😂
Coloca tudo.
Porque essa talvez seja a melhor matéria possível para aparecer justamente agora.
OLHA A BAGUNÇA QUE JÁ ESTÁ ACONTECENDO NESTA CASA
Ana Castela.
Dua Lipa.
Shakira.
Elton John.
Michael Jackson.
BABYMETAL.
Arch Enemy.
Judas Priest.
Agora:
BJÖRK.
Se alguém ainda estiver tentando descobrir “qual gênero a Passport cobre”...
Temos uma resposta técnica:
HAHAHAHAHAHAHAHA.
😂🔥
A GENTE COBRE HISTÓRIA BOA.
É mais simples.
Uma cantora islandesa que começou ainda criança, atravessou o rock alternativo com The Sugarcubes, construiu uma carreira solo impossível de resumir e em 2011 resolveu transformar um álbum inteiro numa experiência de software?
ENTRA.
Um grupo de rap paulista abrindo imagens perdidas de vinte anos atrás?
Entra.
Uma banda brasileira de death metal começando nova formação?
Entra.
Country quebrando recorde?
Entra.
Uma banda de garagem com uma demo absurda que ninguém conhece?
ENTRA TAMBÉM.
ALIÁS: VOCÊ TEM UMA DESSAS?
Uma banda?
Um projeto eletrônico?
Uma cantora?
Um rapper?
Um DJ?
Um produtor?
Um grupo experimental tão esquisito que nem vocês sabem explicar o que estão fazendo?
MANDA.
Especialmente esse último.
Björk aprovaria a confusão.
😂
GRAVOU UMA DEMO?
MANDA.
Tem vídeo?
Manda.
Tem show?
Manda.
Tem uma história?
Manda.
Tem uma experiência misturando música e tecnologia?
Manda.
Tem uma banda ensaiando numa garagem?
Manda.
Tem alguém fazendo música dentro de um quarto porque ainda não existe dinheiro para estúdio?
MANDA ESSA DROGA PRA CÁ.
A Passport não precisa esperar o artista aparecer numa parada para descobrir que ele existe.
ENQUANTO ALGUNS FECHAM AS PORTAS...
NÓS ABRIMOS.
E Björk é quase a prova perfeita de por que portas precisam ficar abertas.
Porque imagina alguém tentando enquadrar uma artista dessas antes de ouvi-la:
— Isso é pop?
— Não exatamente.
— Rock?
— Às vezes.
— Eletrônico?
— Também.
— Experimental?
— Bastante.
— Então onde colocamos?
NO PLAY.
Problema resolvido.
😂
TEMOS RÁDIOS. MUITAS.
Você chegou aqui pela Björk?
Continua.
Descubra alguma coisa.
Faça um pedido.
Talvez apareça algo conhecido.
Talvez você encontre uma música de outro país, outra década ou outro gênero que jamais procuraria sozinho.
Melhor ainda.
Porque uma casa de música deveria ampliar seu ouvido.
Não construir uma cerca em volta dele.
QUER PARTICIPAR?
A porta também está aberta.
Escreva sua matéria.
Mande sua banda.
Divulgue um artista.
Envie uma história.
Mande fotos.
Vídeos.
Podcast.
Material antigo.
Descobertas.
Correções.
Tem alguma coisa esquecida num HD há vinte anos?
Depois da história dos Racionais, acho bom verificar. 😂
PARTICIPE.
Leitor não precisa ficar do lado de fora.
E TEM O APOIE
Porque fazer essa máquina crescer custa dinheiro.
Servidor.
Infraestrutura.
Ferramentas.
Arquivo.
Desenvolvimento.
Tudo isso existe.
Quem puder contribuir financeiramente:
AJUDA PRA CACETE.
E seguimos dentro do nosso vocabulário editorial autorizado. 😂
Agora:
não pode contribuir com dinheiro?
NADA MUDA.
Leia.
Ouça.
Compartilhe.
Faça pedidos.
Mande uma pauta.
Envie uma demo.
Apresente um artista.
Mostre a Passport para alguém.
Apoiar também é fazer a música circular.
PORQUE NÃO QUEREMOS UMA MÁQUINA ENGESSADA
Essa talvez seja a maior lição que Björk pode deixar numa publicação musical.
Fórmula funciona?
Ótimo.
E DEPOIS?
Você repete a fórmula até ninguém mais lembrar por que ela era interessante?
Ou tenta outra coisa?
A Passport quer continuar tentando.
Rádio.
Editorial.
Vídeo.
Podcast.
Broadcast.
Arquivo.
Artista consagrado.
Artista independente.
Leitor escrevendo.
Banda enviando material.
Uma história levando para outra.
MOVIMENTO.
Há 15 anos, Björk poderia simplesmente ter lançado dez músicas.
E provavelmente teria feito um ótimo disco.
Só que ela olhou para aquilo e aparentemente pensou:
“Pouco.”
😂
Então colocou música dentro de aplicativos.
Jogos.
Partituras.
Animações.
Ciência.
Natureza.
Tecnologia.
Performance.
Design.
E chamou aquela criatura de:
BIOPHILIA.
Hoje o hardware mudou.
Os sistemas mudaram.
A tecnologia mudou.
Mas aperta o play em Björk cantando com The Sugarcubes em 1988.
Depois vai para “Moon”.
Depois coloca “Crystalline” ao vivo em 2023.
Décadas.
Formatos.
Tecnologias.
Palcos.
A mesma voz impossível de confundir.
Daquela ilha no Atlântico Norte que muita gente ainda precisa procurar no mapa...
para o mundo inteiro.
E agora:
PARA DENTRO DA PASSPORT RADIO.
Sem gaveta.
Sem cerca.
Sem pedir licença.
Bem-vinda, Björk.
A porta da frente estava aberta.
Só não esperávamos que você entrasse vestida desse jeito.
...
Pensando bem: